Cabeça Dura II

por eduardopmorris

Como disse anteriormente, a escola onde passei boa parte da minha infância ficava ao lado da Catedral Metropolitana de Vitória-ES, e naquela região muita gente estacionava o carro, muita gente mesmo, e onde tem carro tem o que? Flanelinha!!! A rua ficava cheia de flanelinha, eles “olhavam” os carros, lavavam os carros, ficavam lá ouvindo som nos carros dos donos mais confiantes e algumas vezes, quando tinha menos carro, até jogavam uma bolinha na rua.

Em um daqueles dias onde ficávamos de integral estendido, estávamos saindo da escola com a madrinha do meu irmão quando vi que os flanelinhas estavam jogando bola, e enquanto a madrinha do meu irmão fechava os portões da escola fiquei ali olhando a peladinha no meio da rua, a madrinha do meu irmão ainda disse “não saiam daqui de perto de mim”, mas quando vi a bola vindo na minha direção não consegui obedecê-la, vi que a bola foi parar atrás de um carro que estava do nosso lado então prontamente corri pra onde a bola tinha entrado e notei que a bola não estava muito longe e que se eu me agachasse conseguiria pega-la facilmente, larguei merendeira, bolsa e tudo o mais pro lado e fui pra debaixo do carro pegar a bola, consegui pegar a bola e comecei a sair de lá, lembro que nessa hora meu irmão, Vandinha e a mãe dela já estavam me gritando atrás do carro, quando achei que já não estava mais sob o carro levantei minha cabeça e senti que ela bateu em alguma coisa, dei um sorrisinho abaixei a cabeça e terminei de sair, na hora que minha cabeça saiu debaixo do carro já tomei logo um puxão da madrinha do meu irmão que me levantou na base do beliscão pelo braço, ela tomou a bola da minha mão, jogou para os flanelinhas e falou umas besteiras pra eles, quando ela virou pra brigar comigo vi que ela de repente ficou estática me olhando sem falar uma única palavra, eu já tinha colocado a merendeira no pescoço e ia pegar minha bolsa quando notei que meu irmão estava branco como uma vela segurando ela na mão, ele apontou o dedo pro meu peito e começou a gaguejar, a madrinha dele baixou minha cabeça e passou a mão nas costas da minha cabeça e quando olhei pra ver o que era notei que a mão dela estava toda vermelha de sangue, depois olhei pra onde meu irmão apontava e notei que minha blusa e merendeira também estavam todas sujas de sangue, quando virei pra madrinha do meu irmão pra perguntar alguma coisa ela já estava colocando um pano, que não sei de onde brotou, na minha cabeça e me pegando pra colocar no carro. Fomos parar mais uma vez no pronto-socorro de um hospital que tinha ali nas proximidades, pra minha sorte a madrinha do meu irmão conhecia o pessoal do hospital e eu fui logo atendido. Lembro de terem cortado o meu cabelo, raspado, depois passaram uns negócios que ardia até a alma, nessa hora eu chorei porque foram uns 2 ou 3 líquidos que só sabiam fazer arder a minha cabeça, a madrinha do meu irmão, meu irmão e Vandinha não saíram do meu lado em momento nenhum, nem mesmo na hora que me deram uma merda de injeção no braço e outra na cabeça pra me costurar. Depois disso colocaram um curativo e mais uma vez enfaixaram minha cabeça, não lembro quanto tempo passou, mas de repente minha mãe entrou na sala e lá estava eu mais uma vez com a cabeça enfaixada, quando saímos da sala vi meu pai que fez menção e levantar da cadeira, mas de repente começou a ficar branco, branco e minha mãe e a madrinha do meu irmão correram pra acudi-lo e começaram a chamar um médico, não sei o que houve, mas ouvi minha mãe comentando algo a respeito do meu pai não poder ver sangue, que era o que mais tinha na minha blusa, por conta disso ainda ficamos alguns minutos no hospital esperando meu pai ser atendido. Quando saímos do hospital eu estava com um pano por cima do sangue e já estava de noite.

No dia seguinte fomos almoçar na casa da madrinha do meu irmão e só lá minha mãe foi saber o que tinha acontecido comigo, ouvi a conversa onde contavam da minha brincadeira de gandula e que a minha cabeça “abriu” quando bati na placa traseira do carro e que minha mãe não precisava se preocupar pois já tinha tomado a antitetânica, o restante da conversa não me interessava, então fui brincar de esconde-esconde dentro do apartamento com Vandinha e meu irmão, já havíamos brincado outras vezes e eles nunca me encontravam, tão logo a brincadeira começou eu corri pro quarto de Vandinha, tirei umas caixas que estavam debaixo da cama, entrei lá e puxei novamente as caixas pra debaixo da cama, dessa forma as caixas me escondiam, quando estava debaixo da cama lembro de ter esbarrado a cabeça enfaixada no estrado da cama, mas nem dei confiança e fiquei ali quietinho deitado. De repente me senti sendo puxado de debaixo da cama, meio zonzo lembro de ser colocado dentro do carro e ir novamente parar no hospital, lá tiraram minhas faixas da cabeça que estavam em parte avermelhadas, tiraram os curativos, que doeram demais pra tirar, depois disso passaram novamente a porra dos líquidos que ardiam e tomei a merda da injeção na cabeça, quando terminaram de dar os pontos minha mãe começou a me dar um baita esporro.

O que aconteceu foi o seguinte, pra variar não estavam me achando no meu esconderijo, então desistiram da brincadeira e começaram a me gritar, quando os adultos notaram que eu não respondia, foram atrás pra ver o que estava acontecendo, e se desesperaram ao notarem que nem mesmo eles me achavam, quem me achou um bom tempo depois foi meu irmão que segundo dizem estava no quarto gritando e apontando pra um cantinho debaixo da cama, onde dava pra ver uma cabeça com uma faixa branca e vermelha, era eu que estava lá dormindo e com os pontos do machucado abertos e com a faixa fora do lugar na minha cabeça, isso tudo decorrente da pancada no estrado da cama.  🙂

Será que esse monte pancada na cabeça deixou alguma sequela?  🙂

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