Cabeça Dura

por eduardopmorris

Certa vez cheguei na escola no horário da manhã, naqueles dias em que meus pais não tinham com quem nos deixar, pois minha musa da infância, Maria, ainda não trabalhava como ajudante lá em casa. A escola onde estudávamos não tinha aula no período integral, mas, para os filhos das donas e para o afilhado dava-se um jeito, talvez por isso eu era feito de cachorro na brincadeira de casinha. Neste dia estávamos lá brincando de casinha, mas aquele negocio de ser cachorro já estava me enchendo a paciência, então quando vi que as mesas onde lanchávamos estavam no pátio tive logo a idéia de mudarmos de brincadeira, o problema é que eu não podia falar, pois na brincadeira cachorro não falava, só latia, mas como já estava embucetado com aquela situação toda fiquei de pé e falei que tinha cansado e que meus joelhos estavam doendo, e por isso eu ia brincar de espaçonave, lembro que nessa época tinha visto algo na televisão a respeito de um pessoal que vivia em uma espaçonave e tinha um cara de orelha pontuda que ninguém gostava, e por isso simpatizei com o sujeito na hora, as mesas da lanchonete estavam dispostas umas ao lado das outras e deviam ser umas 5 e cada uma tinha 4 cadeirinhas, estas cadeiras estavam sobre as mesas com os pés virado pra cima, na hora subi em cima de uma das mesas e desvirei uma das cadeiras de forma que eu pudesse sentar nela em cima da mesa, as outras cadeiras continuavam com os pés virados pra cima e por isso eram os “volantes” da minha espaçonave. Antes que me corrijam, sei que espaçonaves não tem volante, mas vamos dar um desconto pra uma criança de 6 anos que sem saber já era um projeto de Trekker. Meu irmão e Tonin ficaram de longe me olhando preparar minha espaçonave, e quando viram que a brincadeira estava legal decidiram preparar as espaçonaves deles também, mas como eles eram maiores, eles tiraram as outras duas cadeiras de cima da mesa. Estávamos lá brincando numa boa quando ouvi um berro lá de dentro da cozinha: “Sai das mesa seus moleque, ceis vão se rebentá”, quem gritava era a cozinheira da escola, ela era uma mulher grande e negra, me lembrava uma mulher de um filme que tinha visto na televisão na época, um filme de uma maluca que fez um vestido com a cortina da casa, pelo tamanho dela, o respeito era imposto só com um olhar, mas nem dei confiança, meu irmão e Tonin desceram na hora da mesa. Os dois ficaram me falando pra descer porque eu ia apanhar, mas nem tava aí, eu mandava na minha espaçonave, de repente eu vi ela vindo da cozinha, fingi que minha espaçonave atirava nela e ela continuava a chegar perto com uma vassoura na mão, sem pestanejar fiquei de pé sobre a mesa joguei as cadeiras todas no chão e pulei pra mesa seguinte, onde meu irmão estava, e comecei a gritar que eu era o Super-Homem, nisso todos gritavam pra eu descer e ela começou a correr na minha direção, quando virei pra trás e vi a cena dela vindo correndo com uma vassoura na mão corri pra pular pra próxima mesa, mas quando armei o pulo escorreguei e cai no chão entre as duas mesas, na hora lembro de ter sentido uma pressão na minha cabeça e depois apaguei. Lembro de ter acordado com a cabeça toda enfaixada no colo da minha mãe em um pronto-socorro, meu rosto estava bem arranhado na bochecha, quando minha mãe me viu acordado me deu um abraço e vários beijos, notei que ela chorava muito e quando perguntei o que houve ela me disse que eu tinha caído da mesa e uma das cadeiras tinha caído na minha cabeça e por isso eu havia desmaiado, perguntei por meu irmão e ela disse que ele estava com meu pai fora da sala onde estávamos. Quando sai da sala notei que meu pai estava mais branco do que o normal e ele também chorava enquanto segurava meu irmão no colo, dias mais tarde fiquei sabendo que a cozinheira da escola chegou a pensar que eu tinha morrido e que quem tinha me levado pro pronto socorro tinha sido o pai de Tonin que pra minha sorte estava na escola naquela hora só Deus sabe fazendo o que! Só lembro de ter voltado a ver o cara da orelha pontuda, o puto que me inspirou a fazer aquela brincadeira de merda, depois de muitos anos.

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