Contos de Móris

A primeira e o último

Como eu já disse, a segunda escola por onde passei não teve muita coisa interessante, a terceira então nem se diga, afinal de contas o que tem de anormal em brigas na sala de aula, brigas fora da escola, jogar cadeira pela janela, pegar papel molhado e jogar no teto ou ameaçar os outros alunos pra te darem cola??? Mas calma, não fiz nada disso, lembrem-se que na terceira escola onde estudei tinha colocado na cabeça que seria o melhor da turma, até tive que entrar em uma disputa intelectual com outro CDF que já estudava lá há mais tempo, mas tirei essa disputa de letra.

Mas a segunda escola por onde passei teve um fato marcante, foi lá que encontrei a minha primeira verdadeira namorada, coisa de criança, mas ainda assim uma namorada nos padrões da normalidade, ou quase!

Nessa época eu já andava de busão pra cima e pra baixo dentro de Vitória, aquela ilha já estava quase toda dominada só faltava eu pegar uns 3 ônibus errados e eu conheceria ela toda. Em uma destas viagens de busão vi uma menina que me chamou a atenção, eu tinha acabado de pular a roleta e estava indo sentar com meu irmão, quando olhei pra trás e a vi passando também pela roleta, ela era menor e um ano mais nova que eu e estava acompanhada da mãe dela, na hora notei que ela estava com o mesmo uniforme que eu, mas por ser um ano mais nova, a turma dela entrava por outro portão da escola e em outro horário, os recreios dela também eram em outro horário, em resumo eu só poderia vê-la dentro do busão. Fiquei de longe tentando ver o ponto que ela desceria, mas meu irmão ficou jogando conversa fora comigo e não consegui ver qual era o ponto.

No dia seguinte, estava lá do lado de fora da escola apostando com meus colegas quem cuspia mais longe quando de repente chega uma menina bonitinha e me entrega uma cartinha, ela saiu correndo e passou pelo portão por onde entraríamos, o portão já estava aberto, mas não podíamos entrar pois as crianças menores ainda estavam no pátio, quando vi que a menina entrou novamente fiquei prestando atenção nela e notei que ela estava indo conversar com a menina do busão, na mesma hora sai de perto dos outros meninos e fui ler a cartinha, nela estava escrito “Você quer namorar comigo?”, e tinham dois quadrados pra marcar SIM e NÃO. Como eu estava desimpedido, pensei “Por que não?”, marquei o quadradinho com o “SIM” e cheguei perto do portão pra entregar a cartinha, a menina bonitinha veio perto do portão e eu entreguei a cartinha, ela disse “Espera” e eu fiquei ali do lado do portão vagabundeando, daqui a pouco ela voltou com outra cartinha, na hora lembrei dos meus outros namoros e imaginei que esse negocio de namoro era mais complicado do que parecia, na carta estava escrito “TE AMO, QUAL O SEU TELEFONE?”, não me assustei com as primeiras duas palavras, nem tinha noção do que elas significava, então escrevi o telefone no papel e devolvi pra “leva e tráz”, que sumiu correndo pra dentro da escola, como ela não disse nada fiquei ali bestando no portão até a nossa entrada ser liberada. Como era de se esperar, não tive resposta dela durante o dia todo, e nem mesmo a encontrei no busão, mas depois que cheguei em casa, tive a novidade com relação ao meu novo namoro, o telefone tocou e como eu que estava ali por perto atendi sem nem mesmo me atentar para o que tinha acontecido pela manhã, quando terminei de falar “Alô” alguém disse algo inaudível do outro lado e desligou, ainda não tinha lembrado do acontecido pela manhã, então achei que era algum daqueles trotes do tipo:

– Alô, é da casa do Zé Porquinho?

– Não!

– Então desculpa porque eu liguei pro chiqueiro errado! – e o safado do outro lado desligava.

Mas que diabo de trote besta era aquele? Eu falava alô e a pessoa falava alguma coisa louca e desligava? Deixei pra lá e fui pro quarto, mas antes que eu desse o segundo passo o telefone tocou novamente, e lá fui eu mais uma vez:

– Alô?

– tiamu – e o telefone mais uma vez foi desligado.

Aí a ficha caiu!!! Caraca, a menina louca do busão estava me telefonando, falando “Te amo” e desligando! Que maluca! Desliguei o telefone, mas dessa vez nem me mexi, fiquei ali esperando o telefone tocar e ele tocou, mas não disse alô, fiquei esperando a maluca falar alguma coisa e acho que ela foi pega desprevenida com o silêncio, pois ela falou:

– Alô?

– Oi. – Respondi.

– Por que você não falou nada? – Disse ela parecendo brava

– Ué, porque eu não quis. – Respondi calmamente.

– Você é bobo hein. – Disse ela ainda parecendo brava.

– Mas eu quero conversar com você e saber seu nome.

– Não posso conversar, meu irmão fica aqui me vigiando, e meu nome é Adriana. Tchau! – e desligou novamente.

Pronto, agora eu sabia o nome da minha nova namorada. No dia seguinte eu tinha um plano pra encontrá-la.

Quando chegou nossa hora de entrar na escola, fingi que tinha esquecido minha agenda, um livro diário onde o professor anotava atividades para casa e o nosso comportamento, o castigo para quem esquecia a agenda era passar o dia todo na biblioteca lendo livros, qualquer livro que tivesse na biblioteca. De repente entram umas meninas na biblioteca, eu que estava atrás da estante fiquei só olhando e quando elas entraram em um dos becos da biblioteca eu apareci na frente dela e disse: “Oi”.

As 3 meninas tomaram um susto, mas uma delas ficou mais assustada do que o normal, Adriana perguntou:

– O que você está fazendo aqui?

– Esqueci minha agenda, aí já vu né? – expliquei.

– Mas você não pode ficar aqui! – respondeu ela ainda assustada

– Claro que posso, na verdade eu SÓ posso ficar aqui. – respondi sorrindo.

– Não acredito! E como você sabia que eu estaria aqui no meu recreio?

– Ontem vi sua amiga com um livro com o selo da biblioteca, aí já viu né?

– Tchau! – disse ela enquanto virava as costas e saia da biblioteca.

A amiga bonitinha dela deu de ombros pra mim e saiu atrás junto com a terceira.

Quando minha mãe até chegou a me questionar a respeito da minha agenda, mas inventei a desculpa besta que ela tinha caído atrás da minha cama e por isso não levei, mas bem antes que minha mãe chegasse a minha namorada ligou:

– Oi.

– Oi. – respondi espantado, afinal de contas ela parecia estar calma.

– Amanhã você pode fazer a mesma coisa? – perguntou ela parecendo ter gostado da minha travessura.

– Hmmmmm, a agenda eu não posso esquecer mais, minha mãe vai me dar um esporro por causa do que eu fiz hoje, mas posso esquecer a caderneta. – Respondi empolgado.

Uma pausa para a explicação: além da agenda tinha que levar também a caderneta que era a prova que tínhamos ido pra escola naquele dia, na caderneta ficava a nossa presença diária junto com as nossas notas bimestrais e todo dia nossos pais também precisavam assiná-la pra mostrar que estavam cientes do que acontecia na escola.

– Então te encontro amanhã na biblioteca. – disse ela desligando logo em seguida, antes que eu pudesse me despedir e pedir o telefone dela.

No dia seguinte, mesma coisa, não apresentei a caderneta e fui levado para a biblioteca, isso foi bom, pois consegui terminar algumas leituras que haviam ficado pendentes no dia anterior. Mas infelizmente a sacana da Adriana não apareceu.

De noite antes de tomar o segundo esporro servido com sermão consecutivo da minha mãe, Adriana me ligou:

– Desculpa Dudu. – começou ela meigamente.

– Como você sabe meu nome? – respondi assustado.

– Sua prima Alice é da minha sala.

– …….

– Você ainda está aí? – disse ela depois de alguns segundos.

– Estou sim, mas como você sabe que ela é minha prima?

– Hoje levamos fotos da nossa família pra sala, e vi que você estava em uma foto abraçado com ela. E por isso não fui na biblioteca, porque estava brava com você.

– Mas por que? Ela é minha prima!

– Só fui saber disso depois do recreio. Por isso estou pedindo desculpas.

– Poxa! Amanhã não posso esquecer a agenda e muito menos a caderneta. – disse revoltado.

– Eu sei. Então eu vou fazer o seguinte, vou pular o muro do lado da escola e te encontro naquele prédio que fica do lado. Me espera ali por perto que eu te chamo.

– Tá bom. – Respondi enquanto imaginava onde ficaria o tal prédio vizinho.

– Então tchau. Te amo.

– Te amo. – Respondi isso pela primeira vez na minha vida.

Definitivamente, crescer em uma escola tem dessas vantagens, da mesma forma que eu conhecia a minha antiga escola MUITO bem, a Adriana demonstrava conhecer a escola onde estudávamos melhor ainda.

No dia seguinte fui para o tal prédio e fiquei lá esperando ela aparecer, como um ninja que sai das sombras ela aparece atrás de mim e me chamou, olhei pra trás e vi que ela estava na beira de um buraco onde ficaríamos invisíveis aos que passavam na rua, me encaminhei ate ela e fui logo perguntando:

– Como chegou aqui? – Perguntei espantado.

– Pulei o muro da escola, com a ajuda de duas amigas. – Respondeu ela naturalmente.

– E como vai voltar?

– Uma das minhas amigas pulou junto, mas você vai ter que ajudá-la a voltar pra dentro da escola.

Pra que? Imaginei. Afinal de contas era só ela pular sozinha que eu a ajudava a voltar.

– Tudo bem, mas você poderia pelo menos me falar o seu telefone? – Perguntei antes que ela fugisse ou eu esquecesse.

– Te falo hoje a noite quando te telefonar.

– Então tá, mas será que poderíamos pelo menos… – e fui andando em direção a ela com a intenção de beijá-la. Mas a cachorra saiu da minha frente na hora H e eu cai dentro da porra do buraco que estava atrás dela.

Eu não tinha crescido muito, e o buraco tinha a altura dos meu ombros, então custei um pouco a sair, mas ela saiu correndo pra voltar pra escola antes que eu saísse do buraco. Quando consegui sair fui correndo atrás dela pra ver se conseguia pelo menos o tão esperado beijo, mas quando cheguei lá só estava a amiga bonitinha, fiquei ali olhando pra ela e a única coisa que me restava era ajudá-la a pular o muro, fiz “pezinho” pra ela, mas ela disse que não sabia subir daquele jeito, então a única forma de ajudá-la era ficando de quatro pra ela subir nas minhas costas, quando fiz cara de “não acredito” pra ela, ganhei um beijo na bochecha que me convenceu a tão árdua tarefa, sujar a blusa não era o problema, afinal já estava todo sujo por conta de cair no buraco e ter de sair dele, meu medo era algum dos meus colegas verem e ficarem de sacanagem comigo o restante do ano.

Devido a minha pose de cascão, tive que ficar mais uma vez na biblioteca o dia todo, mas aquele dia eu estava muito feliz, embora tivesse motivos para ficar de outra forma.

De noite ganhei um castigo de “mi madresita” que me custou ficar lavando a louça e o banheiro por uma semana sem sair de casa pra nada a não ser pra ir à escola, mas ia enfrentar esse castigo de ficar dentro de casa numa boa, pois a conversa que tive com Adriana foi muito esclarecedora:

– Oi Dudu.

– Adriana, antes que você diga qualquer coisa, eu não quero mais namorar com você.

– tu tu tu tu tu tu tu

Fez o som do telefone desligado de outro lado da linha.

Agora só faltava descobrir o telefone da amiga bonitinha da Adriana, então liguei pra minha prima imediatamente.

– Oi Lice.

– Oi Du.

– Qual o nome e telefone daquela amiga bonitinha que sempre está com a Adriana?

– Sei lá Du, sempre tem duas meninas com ela.

– A mais bonita Lice, me ajuda vai.

– Du, a mais bonita tem namorado e é da turma do seu irmão.

– Poxa! Me ferrei. Obrigado Lice. Beijo e tchau.

– Tchau Du.

O namorado dela era maior que eu, mesmo que ele fosse da minha turma seria maior que eu, sendo mais velho então, ferrou!

Enquanto eu divagava sobre meu namoro de menos de 1 semana, o telefone tocou.

– Eu gostaria de falar com o Eduardo. – Disse rispidamente a voz de uma mulher.

– Sou eu.

– Seu moleque filho de uma puta, se você chegar perto da minha filha de novo, eu te corto todo na tesoura, e eu sei sua cara porque eu já te vi dentro do ônibus e sei onde você mora!

Fiquei congelado enquanto o telefone fazia novamente o som de desligado, eu lembrava vagamente da mãe da Adriana, mas não teria como reconhecê-la na rua caso ela quisesse me pegar desprevenido.

Obviamente não contei nada daquilo pra minha mãe, já bastavam os problemas que ela tinha, nem pro meu irmão que conhece muitos dos meus segredos eu contei nada.

Passei uma semana dentro de casa sem sair pra nada, e mesmo depois desse período eu ainda tive receio de sair de casa e ser pego na covardia, mas mais uma vez eu fui ameaçado por uma pessoa sem palavra, pois aquela mulher doida nunca tentou fazer nada comigo, graças ao bom Deus.  🙂

Vocês lembram do titulo desse conto? Leiam lá e depois retornem aqui.

Notaram que a “Primeira” descrita era a Adriana né? Minha primeira namorada que cito o nome no livro. E o último??? Seguinte, quando conheci Adriana já estava entrando na pré-adolescência e como não ocorreu nada de legal nessa época, a não ser olhar as vizinhas trocando de roupa com a janela aberta, esse é o meu ultimo conto da minha infância.

Espero que tenham gostado, e se preparem, pois já morreu quem tinha que morrer e minha mãe não casou novamente e por isso mesmo, não se separou. (dããã)

Beijundas e nos vemos na minha adolescência!!!

Inferno na Torre

Tão logo fiquei sabendo que eu iria pra uma nova escola já fiquei revoltado, pois eu estaria de certa forma saindo do meu reino, não que eu mandasse na escola onde estudava, mas conhecia aquele terreno como a pequena palma da minha mão.

Não sei o porquê da mudança, mas creio que em partes seja devido ao fato que todos os meus primos que tinham a idade próxima da minha e do meu irmão já estavam lá, mas nenhum deles tinha exatamente a nossa idade então talvez eu encontrasse alguns deles no recreio, mas nada garantido!!! Outro fato que pode ter pesado muito é que minha tia caçula também dava aula nesta escola e isso poderia ser ruim, muito ruim.

Nesta nova escola estava disposto a fazer tudo que meu pai tinha me pedido, desde ficar sorrindo pra quem eu nunca vi na minha vida e até mesmo parar de aprontar. A escola era tipo 3 vezes maior que o antigo local onde eu estudei, então sai de lá sem conhecer nem metade da escola.

Primeiro dia de aula é uma merda!!! Todos te tratam diferente, a diretora veio nos conhecer, o coordenador veio nos levar pessoalmente até a sala de aula e a professora me colocou na primeira fila e na frente dela, não sei se alguém me entregou, ou se aquilo tudo era falsidade porque nos dias seguintes, o coordenador nem olhava na minha cara quando passava por mim, a diretora eu NUNCA mais vi na escola e a professora, essa me ferrou com força, pois não me deixou mudar de lugar nem por reza brava.

Não tenho muito a contar desta nova escola, o que tenho de mais interessante deixarei para o próximo conto, além dela só estudei em mais uma outra escola antes de entrar na adolescência, mas a terceira escola era publica, então lá ninguém veio me receber e nem fizeram questão que eu sentasse na primeira fila, embora eu tenha feito isso por conta própria, mas a grande diferença é que quando entrei no colégio publico eu decidi que seria o melhor da sala e isso mudou o restante da minha vida pois a partir daí eu entrei em uma tribo que estou até hoje, a tribo dos nerds!!!

Um fato que me chamou a atenção nesta segunda escola onde estudei foi a primeira conversa que tive com um aluno veterano da minha sala, ele não era veterano por ser o mais velho da turma, mas porque já estudava lá desde a pré-escola. Lá estava eu sentado na primeira fila e tentando prestar atenção no inicio da aula, quando o menino que estava ao meu lado aproveitando que a professora virou as costas me cutuca e diz:

– Vai começar o inferno na sala!

Fiquei olhando pra cara do moleque e na hora lembrei do filme que tinha passado no final de semana e se chamava “Inferno na Torre”, mas nesse filme muitas pessoas morreram queimadas, dei um sorrisinho sem graça pro psico e dei uma verificada se o caminho ate a porta estaria livre no caso de uma necessidade extrema, mas o covardão não teve coragem de fazer nada, ficou só na frase de efeito mesmo!

Não guardo muitas lembranças desta escola, lembro mais do primeiro colégio do que deste, e acho que as pessoas que lá estudaram também, pois depois de tantos anos um antigo colega de sala do primeiro colégio me achou na internet nestes sites de rede social, mas da segunda e terceira escola, nunca mais me acharam, ou nem mesmo procuraram, eu até procurei alguns, mas sinceramente, não vi motivos em voltar a ter laços com as pessoas que eu achei.

ADEUS

Era meu aniversário, e íamos em um restaurante pra podermos festejar, o bom desse restaurante é que tinham alguns brinquedos onde nós poderíamos ficar brincando enquanto os adultos ficavam lá bebendo e jogando conversa fora, então a programação era a seguinte, meus tios chegariam no restaurante primeiramente e guardariam bons e muitos lugares próximos da área de recreação, nós iríamos pegar meu avô e avó e os levaríamos pro restaurante.

Assim que chegamos a casa de nossa avó vi meu avô sentado em frente de casa, só olhando pro portão, passei correndo pelo portão e gritando “OI VÔ”, mas meu avô não respondeu, na verdade ele nem se mexeu, logo depois de gritar eu pularia no colo dele e ficaria ali abraçado, mas como ele nem mesmo me respondeu, eu parei na frente dele e fiquei chamando, quando minha mãe entrou e viu a cena, tentou chamá-lo, mas quando viu que ele não respondia já foi entrando dentro da casa de minha avó chamando por ela. Minutos depois minha mãe saiu conversando com minha avó:

– Tem quanto tempo que você disse que está assim mãe?

– Tem umas duas horas que ele veio sentar aqui minha filha, como seu pai tem costume de ficar aqui sentado olhando pro tempo, eu nem dei confiança.

– Mas ele nem responde a gente mãe.

– Minha filha eu não sei, vou ligar pro seu tio que é médico.

Nisso minha avó voltou pra dentro de casa e minha mãe foi atrás. Meu irmão continuava parado do lado do portão olhando fixamente pro meu avô.

Minha mãe saiu depois de alguns minutos e disse:

– Meninos entrem, seus tios estão vindo pra cá.

– E minha festa mãe?

– Infelizmente não faremos ela hoje meu filho, mas assim que o vovô melhorar, faremos uma festona.

Muitos minutos depois meus tios e primos todos apareceram, mas a única mudança no ambiente era que nesse momento meu irmão não estava imóvel ao lado do portão, ele estava imóvel olhando para o meu avô ao lado da velha mangueira onde nós brincávamos. Minutos depois chegou um homem todo de branco que eu já tinha visto algumas vezes nas festas e que meus tios chamavam de “tio”. Fomos levados pro quintal dos fundos e ficamos lá brincando o dia todo, terminamos dormindo na casa vovó naquela noite, todos juntos no mesmo quarto.

Em conversa posterior minha mãe nos disse que nosso avô tinha tido um derrame, que era um tipo de machucado por dentro da cabeça e que infelizmente ele não poderia mais brincar conosco nem ficar contando histórias.

Meu avô ficou daquela forma por uns 2 anos, meus tios e tias dedicaram todos os esforços possíveis para a melhoria do meu avô, mas infelizmente a vida do meu avô não se estendeu por muito mais do que este período.

Era possível notar a tristeza da minha avó nos anos que se seguiram e cerca de 5 anos após a despedida do nosso avô, ela foi se juntar a ele.

Deus vá contigo, foi esse o significado que me ensinaram para a palavra ADeus, e muito embora Ele sempre esteja conosco, essa palavra só deveria ser utilizada quando a pessoa que estivesse ouvindo ou falando estivesse indo ao encontro Dele, e mesmo esta sendo a única certeza absoluta que temos, que iremos nos encontrar com Ele, ainda assim não somos criados para esta realidade.

Acredito que para muitas pessoas da minha idade, e os mais velhos também, a casa dos avós era praticamente o centro do universo, então uma vez que ambos tenham ido, muitas famílias perdem a referencia da união familiar, e assim foi em partes com minha família.

Tchau

Estávamos na casa da minha avó, todos juntos e festejando o ano novo, tocaram as mesmas musicas que tocavam todo ano, meus tios e tias beberam muito, os primos ficaram acordados até onde agüentavam e os mais novos como sempre não agüentaram nem a novela das 8 terminar, eu tentava como sempre acompanhar os primos maiores e esse ano eu estava determinado a só ir dormir depois da meia-noite. A festa de ano novo era uma das poucas festas que juntavam a família toda, pelo menos enquanto meu avô e avó estavam vivos.

Naquele ano consegui cumprir minha meta e ainda estava acordadão no momento da contagem regressiva, mas uma coisa estranha aconteceu aquela noite, de repente meus pais simplesmente decidiram ir embora, juntamos tudo que era nosso, entramos no carro e voltamos pra casa. Eram uns 5 minutos de carro, mas meu irmão dormiu no caminho e meus pais não trocaram uma única palavra durante o percurso todo, ao chegarmos em casa, meu pai levou meu irmão pra cama e minha mãe me preparou pra dormir, depois que deitamos minha mãe apagou a luz e fechou a porta do quarto, coisa que não era normal dela fazer, como eu não estava dormindo e estranhei o fato dela ter fechado a porta, fui até a porta pra ver se ouvia alguma coisa, não consegui ouvir muita coisa, mas dava pra notar que o tom de voz dos meus pais era mais áspero do que o normal, a única coisa que consegui ouvir foi meu pai falando mais alto: “… então vou embora …”, na hora sai correndo do quarto e quando vi meu pai já passava pela pela porta e se encaminhava pra sair do predio, minha mãe ainda tentou me segurar, mas passei correndo por ela e fui atrás do meu pai, quando ele me viu atras dele, parou de andar e me pegou no colo, lembro que eu chorava no colo dele e pedia: “Pai por favor, não vai embora, por favor! Por mim”, meu pai voltou pra dentro do apartamento comigo no colo e me colocou no chão, e minha mãe que ainda estava brava com meu pai, disse: “Philip, se você estiver voltando só por causa do Eduardo, você pode voltar por onde acabou de entrar!”. Minha mãe me pegou no colo, me deu um beijo e disse: “Meu filho, pode deixar que o papai e a mamãe vão conversar, agora vai pra sua cama e pode dormir tranqüilo.”, me deu um beijo na testa e me colocou novamente na cama, quando eu choro muito costumo dormir mais rápido, não sei se é assim com todo mundo, mas comigo é!

Depois que meu pai saiu de casa a lembrança mais forte que tenho foi a conversa que tivemos antes do retorno dele pra Inglaterra, neste dia ele teve uma conversa séria conosco, repetiu algumas coisas que ele já tinha nos falado, como a questão de fazermos sempre amizades e darmos valor aos amigos que encontrarmos pela nossa vida, uma outra coisa que ele nos disse é que estudar é sim muito importante, mas tinha algo que era muito mais importante, ele usou uma palavra que só foi fazer sentido muitos anos depois, empreendedorismo, que na explicação dele era o seguinte: uma pessoa que faz coisas novas sem medo de errar, é uma explicação muito resumida, mas pra uma criança de 11 anos e outra de 13 está de excelente tamanho e teve um momento que ele disse:

– E o que eu posso ensinar de mais importante pra vocês dois é o seguinte, isso daqui – e levantou o cartão de credito no alto – é a falência de qualquer pessoa. Corram disso como o diabo corre da cruz.

Esse último papo aconteceu na beira da praia enquanto comíamos um hambúrguer, ele conversou mais coisa conosco, mas sinceramente, não lembro!

No dia que ele viajou, fomos no aeroporto com um de nossos tios que foi dirigindo, nesse dia ele não conversou nada conosco, só nos disse que sempre estaríamos com ele, onde quer que ele ou nós fossemos, foi a primeira vez que fui em um aeroporto, nos anos seguintes nos comunicávamos por carta e algumas vezes ele nos ligava, mas só voltamos a conversar com muita constância depois que a internet chegou no Brasil, primeiro com o IRC e email, depois pelo ICQ (que mantenho ate hoje) e outras formas de mensagem instantânea.

Infelizmente não segui os conselhos do meu pai e hoje estou aqui escrevendo este blog pra tentar evitar que meus cartões me levem a falência!

Longe

Meu pai nunca foi de xingar perto de nós, não que ele fosse uma pessoa boca limpa, não acredito em adultos que não saibam falar um bom “FODEU!” ou mandar alguém com sinceridade pra “PUTA QUE O PARIU” ou mandar um arbitro de futebol “TOMAR NO CÚ”. Só neste parágrafo cumpri a cota suficiente pra manter meu blog longe de qualquer pessoa menor de 18 anos de idade.

Voltando ao meu pai, não sei se esse jeito dele era decorrente da herança indiana, ou se era somente uma forma de nos manter longe de palavrões o maior tempo possível, se tivesse puxado o meu pai, não estaria escrevendo este blog, pois não teria aprontado nada do descrito até aqui.

Um local que marcou minha infância, e mais tarde marcou muito mais minha adolescência, foi a cidade de Piuma, nossa família ia pra lá nos feriados e acampava no quintal de um casal amigo de todos. Em uma destas estadias fomos convidados a ir em uma festa de casamento em outra cidade vizinha, mas era uma daquelas festas de matar garrote pra fazer churrascão pra galera, segundo os adultos, era uma festa que prometia muito. Tomávamos banho em um chuveiro improvisado e como era um único banheiro pra todos, esse era um negocio que costumava demorar um bocado, como minha inocência já tinha ido pro saco há pouco tempo, quando vi Maria nua pela fechadura, fugi muitas vezes pelo quintal pra ver minhas tias e as amigas delas tomando banho e em uma destas vezes encontrei diversos primos em cima de uma árvore, mas eles não me viram pois estavam concentrados olhando o banheiro improvisado. Depois que todos estavam prontos nos dividimos nos carros, conosco foram mais duas amigas do casal dono da casa onde acampávamos. Entramos todos no carro e seguimos para o churrascão, mas meu pai não conhecia bem aquela região, principalmente porque era em algum sitio perdido no meio do mato, enquanto estávamos na estrada de asfalto era tranquilo, mesmo a noite, mas quando pegamos a estrada de chão, aí o bicho pegou, ninguém sabia como chegar no sitio, e não conseguíamos ver as placas que deveriam estar no caminho pra ajudar, simplesmente não estavam visíveis a noite, em certo momento meu pai estressou de tal forma que soltou uma frase que lembro como se ele estivesse falando agora:

– Daqui a pouco vamos parar lá na casa do caralho!

Eu e meu irmão sem entendermos perguntamos:

– Pai, onde é a casa do caralho?

Todos no carro começaram a rir muito e meu pai continuou todo sério, como vi que todos estavam rindo, fiz outra pergunta:

– Pai, quem é o caralho? É algum amigo seu?

Minha mãe e as duas mulheres riam descontroladamente, e meu pai lá todo sisudo, acho que arrependido por ter falado o palavrão e eu estar lá repetindo aquilo, mas juro que naquela idade eu não tinha idéia do que estava falando, mas como todos riam eu emendei mais uma:

– Então vamos logo pra casa do caralho pai!

E comecei a pular feliz dentro do carro.

– Vamos pai, vamos!

– Pára de falar besteira Edward! – gritou meu pai comigo.

– Não fica repetindo uma coisa que você nem sabe o que é! – emendou rispidamente.

Na hora sentei e fiquei quieto, e sem entender nada olhei pro meu irmão que estava manso no colo de uma das mulheres, todos ficaram quietos dentro do carro, na verdade a única que ainda disse alguma coisa foi minha mãe, que deu uma cotovelada de lado no meu pai e disse:

– Edward é?

Depois disso ela pegou a lanterna que tinha no carro e foi andando fora do carro pra procurar as placas que deveriam estar na beira da estrada.

Quando chegamos na festa, muito tempo depois devido a termos voltado até a estrada de asfalto pra refazermos o caminho corretamente, fui correndo pra ficar com meus primos, e foi lá que eu descobri onde era a “casa do caralho”, ao perguntar para o meu primo mais velho, ele respondeu pra todos:

– É aqui ó! – e segurou o saco pela bermuda e ficou balançando pra nós vermos.

Minha vontade foi de ir pedir desculpas para meu pai, mas ele parecia já ter esquecido do ocorrido dentro do carro, pois estava até dançando forró com minha mãe.  🙂

Sem querer querendo

Nem todos os dias das minhas férias nós íamos para a casa de minha avó, algumas vezes acordávamos mais tarde e por isso só chegávamos lá depois do almoço, eu e meu irmão a toa dentro de casa não era tão ruim, geralmente acordávamos e ficávamos vendo televisão até a hora do almoço, mas um certo dia Maria estava dando uma geral na sala, então como não podíamos ficar vendo televisão, ficamos lá em frente ao nosso apartamento brincando de queimar formigas com o óculos do meu irmão, em um determinado momento aquilo ficou chato e começamos a escrever nossos nomes queimando com os óculos debaixo do chinelo, eu queria queimar até fazer um furo no chinelo, mas meu irmão não deixou, sendo assim a única coisa que me restava era fazer as coisas do meu jeito, entrei no apartamento correndo e sai correndo com uma caixa de fósforos, acendi o primeiro fósforo e quando tentei colocar no chinelo pra queimar, ele apagou! Segundo fósforo e, apagou! Quando meu irmão viu o que eu estava fazendo, veio em minha direção e chegando perto de mim ele perguntou: “Você vai gastar toda a caixa?”, nem dei confiança e acendi mais um fósforo em vão, quando fui acender mais um fósforo meu irmão meteu a cara na frente da caixa de fósforo e disse: “Está acabando!”, mas não estava, muito pelo contrario, eu tinha pego uma caixa nova e para provar eu disse: “Olha aqui.”, quando meu irmão colocou a cara novamente pra olhar a quantidade eu acendi um fósforo e coloquei dentro da caixa de fósforos, o que fez com que todos os fósforos acendessem juntos, meu irmão no reflexo levantou a cabeça, mas não deu tempo, o vooooooooosh dos fósforos queimou parte das sobrancelhas dele e antes que ele pudesse ter qualquer reflexo eu sai correndo pra dentro de casa e fui pra perto da Maria, meu irmão entrou logo depois, sem falar um “A” e foi para o banheiro, eu não saía de perto da Maria, pois acreditava que se acontecesse alguma coisa, ela me defenderia, momentos depois meu irmão saiu do banheiro e entrou no nosso quarto ainda sem falar nada, Maria perguntou o que estava acontecendo e eu contei pra ela, ela me disse que eu não era flor que se cheirasse e disse que não era pra eu sair de perto dela, pois ela não deixaria meu irmão me bater.

Alguns minutos depois a empregada da nossa vizinha chegou lá em casa pra conversar com a Maria a respeito de uma festa a fantasia que elas iriam naquela noite e a Maria disse que já sabia o que iria usar, foi na cozinha pegou uns sacos azul de lixo e foi pra dentro do banheiro com a outra empregada, eu que estava sob proteção, fui na cola. Ela disse:

– Vou colocar esses sacos de lixo como se fosse minha roupa e por baixo vou ficar só de biquíni.

Nisso ela começou a tirar a blusa e a bermuda, eu fiquei sem ação ao pensar que eu estaria prestes a ver Maria novamente nua, mas sem precisar fazê-lo escondido, quando ela ficou somente de calcinha e sutiã a outra empregada me apontou com o queixo e Maria disse que não tinha problema, pois eu ainda era criança. Mal sabia ela.  🙂

Maria infelizmente não tirou a calcinha e o sutiã, mas depois que ela terminou de mostrar a fantasia e colocar a roupa, ela disse que eu deveria ir pedir desculpas para meu irmão, pois o que eu tinha feito era muito errado. Entrei no meu quarto e meu irmão estava deitado na cama dele, como era um beliche e eu dormia embaixo, tive que pedir para que ele descesse, mas ele sem sair lá de cima me respondeu: “Não quero ouvir nada do que você falar, só que você vai concordar com tudo que eu contar amanhã, senão vou te bater de um jeito que você nunca apanhou de ninguém.”

A história que meu irmão contou foi a seguinte, de manhã eu havia acordado antes dele e raspado um pedaço da sobrancelha com o barbeador do meu pai, quando ele acordou e viu a merda que eu tinha feito, ele teve que raspar o restante todo, pois ficaria muito feio com a sobrancelha cortada pelas metades. Eu acho que Maria contou a verdade antes, pois depois que meu irmão contou a versão dele, meus pais me chamaram a atenção dizendo que isso não se fazia, e me colocaram de castigo no quarto. Depois que eu estava lá dentro meu pai chegou na beira da porta e disse: “Nunca mais mexa nos fósforos!”, e fechou a porta.

Eu achei melhor não ir atrás pra falar nada, pois eu já havia concordado com meu irmão que tudo o que ele dissesse se tornaria verdade, independente do que fosse e no final das contas até que não foi nada demais!!!  😉

Clubinho

Íamos bastante ao cinema quando éramos crianças, lembro que todas as férias tinha filme dos Trapalhões, e todos os primos iam juntos assistir, quer dizer depois de um tempo alguns começaram a entrar na pré-adolescência e por isso não se misturavam mais com os menores, tal qual meu pai havia previsto.

Os filmes dos Trapalhões definitivamente marcaram a infância de todos naquela época, mas teve um filme que me marcou mais, não por ser melhor do que os Trapalhões, mas por ter um grupo de crianças no papel principal, os Goonies!

Decorrente daquele filme tivemos que mudar e extinguir o Clube dos Meninos, onde menina não entrava, como os Goonies tinham meninas no grupo deles precisávamos nos adaptar a esta nova moda de ter meninas no grupo, então tão logo chegamos na casa da minha avó no dia seguinte ao filme, já fomos para o terraço, onde ficava o nosso clube, a primeira coisa feita foi retirar a placa de “Menina não entra”, na verdade essa placa não ficava lá sempre, tínhamos um “acordo” de divisão de propriedade, pela manhã era a “Butique das meninas” e de tarde era o “Clube dos Meninos”, a placa das meninas estava escrito “Só entram meninas” e segundo minhas tias isso mostrava que tudo girava em torno das mulheres, pois ambas as placas citavam as meninas. Só fui entender isso muitos anos depois dos clubes acabarem. Pois bem, naquele dia os clubes se uniam e nascia o “Goonies”, que era o nome criativo que decidimos dar ao nosso clube misto. Depois fizemos a nova placa com uma nova frase de efeito, frase esta que foi muito zuada pelos tios, tias e primos maiores, lá estava escrito: “Só entra Pinto”. Pronto, o clube estava criado e começamos com a arrumação do terraço. Minhas tias gostaram da idéia, pois há muito tempo elas programavam uma arrumação lá, mas ficaram com certo receio, afinal de contas que arrumação um monte de crianças poderiam fazer?

Começamos separando as caixas, entulhos e colocando no centro do terraço, dessa forma ganhamos mais espaço nas laterais, depois varremos o terraço e passamos um pano úmido, separamos o terraço em “salas virtuais”, pois assim cada um teria seu espaço pra poder arrumar da forma que achasse melhor. No meio da arrumação achamos um rolo de barbante e uma caixa de copos descartáveis, com isso fizemos alguns telefones para que pudéssemos nos comunicar no terraço, na verdade não precisava, mas ficava mais legal com telefones. Enquanto isso tudo acontecia, meus tios e tias estavam, como de costume, no quintal de trás da casa de minha avó, arrumando tudo para almoçarmos ao ar livre. Achamos também muitos potes de tinta daqueles que se usam na escola, de várias cores, e com isso nosso clubinho ganhou cores que nunca estariam no mesmo ambiente de qualquer casa de adultos.

O quintal de trás da casa da minha avó tinha um tanque onde muitas vezes tomávamos banho, quando cabíamos dentro dele. De repente ouvimos um grito de uma de nossas tias vindo lá do tanque, quando chegamos na beira do terraço pra ver o que estava acontecendo, nossa tia caçula já estava subindo as escadas do terraço com cara de MUITO brava. Quando ela viu o terraço cheio de barbante passando pelo teto com copos pendurados nas pontas, um monte de parede pintada com tinta escolar e o chão pintado com divisões como se fossem cômodos, ela endoidou e começou a xingar todo mundo de filho da piiiiiiiiiiiiii, mandou todos pra piiiiiiiiiiii que pariu e por aí foi, ela só parou quando nosso avô foi buscá-la.

Nosso avô era um cara tranquilão, costumava ficar contando causos da infância dele e de nossas tias, era o nosso principal defensor, sempre que alguém pensava em não nos deixar brincar de alguma coisa, ele intervia e dava o aval dele, geralmente quando isso acontecia não fazíamos besteira, pois não queríamos decepcionar o nosso avô, minha avó era sempre desconfiada com as nossas brincadeiras, sempre achou que podíamos terminar nos machucando feio por brincarmos no terraço, subir no pé de manga ou ficarmos pulando muros e portões, e como vocês já leram ate agora, muitas vezes ela acertou.

Voltando a confusão com minha tia, o que tinha acontecido era o seguinte, a caixa d’água da casa de nossa avó ficava no terraço, e por preguiça nossa ao invés de descermos pra pegar água no tanque para nossas arrumações começamos a usar a água da caixa d’água, quer dizer, passamos pano, limpamos o pano, limpamos os pinceis e tudo o mais com a água que era utilizada pra tudo dentro da casa, e por conta disso a água estava saindo toda escura e com tuchos de poeira. Além disso todo o barbante, copos e tinta utilizados eram materiais que minha tia estava guardando pra devolver para os alunos dela, pois as aulas tinham acabado e alguns alunos tinham viajado antes do término destas. Quem nos contou isso tudo foi o nosso avô mesmo, mas contou isso de uma forma legal, sentado no terraço com todos os netos em volta, ele dizia que como membro sênior (não sabia que porra era essa!) se alguém tivesse que brigar conosco, teria que brigar com ele também e ele tinha certeza que isso não aconteceria, pois ele não era membro sênior só do nosso clube, mas da casa toda, mas ele nos disse também que não poderíamos ficar mexendo no que não era nosso, que precisávamos pedir autorização pra mexer no que não era nosso, com relação a caixa d’água, não era para nos preocuparmos, ele entendeu nossa boa intenção, mesmo que viesse junto com a preguiça e muito desperdício de água, pois a única forma de limpar toda a água da caixa d’água era esvaziando geral, mas que mesmo assim isso servia pra alguma coisa, pois decorrente do esvaziamento da caixa d’água meus tios tinham cumprido com um antigo prometido de lavar a caixa d’água, a única coisa que ele nos pediu foi que ficássemos bem longe da nossa tia , mas só por umtempo, assim evitaríamos possíveis futuros problemas. Nosso clube não acabou naquele dia, meu avô nos eximiu da tarefa de limparmos tudo que havíamos pintado, e nosso clube ficou bonito até o dia que paramos naturalmente de brincar no terraço da casa de nossa avó.

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