Longe

por eduardopmorris

Meu pai nunca foi de xingar perto de nós, não que ele fosse uma pessoa boca limpa, não acredito em adultos que não saibam falar um bom “FODEU!” ou mandar alguém com sinceridade pra “PUTA QUE O PARIU” ou mandar um arbitro de futebol “TOMAR NO CÚ”. Só neste parágrafo cumpri a cota suficiente pra manter meu blog longe de qualquer pessoa menor de 18 anos de idade.

Voltando ao meu pai, não sei se esse jeito dele era decorrente da herança indiana, ou se era somente uma forma de nos manter longe de palavrões o maior tempo possível, se tivesse puxado o meu pai, não estaria escrevendo este blog, pois não teria aprontado nada do descrito até aqui.

Um local que marcou minha infância, e mais tarde marcou muito mais minha adolescência, foi a cidade de Piuma, nossa família ia pra lá nos feriados e acampava no quintal de um casal amigo de todos. Em uma destas estadias fomos convidados a ir em uma festa de casamento em outra cidade vizinha, mas era uma daquelas festas de matar garrote pra fazer churrascão pra galera, segundo os adultos, era uma festa que prometia muito. Tomávamos banho em um chuveiro improvisado e como era um único banheiro pra todos, esse era um negocio que costumava demorar um bocado, como minha inocência já tinha ido pro saco há pouco tempo, quando vi Maria nua pela fechadura, fugi muitas vezes pelo quintal pra ver minhas tias e as amigas delas tomando banho e em uma destas vezes encontrei diversos primos em cima de uma árvore, mas eles não me viram pois estavam concentrados olhando o banheiro improvisado. Depois que todos estavam prontos nos dividimos nos carros, conosco foram mais duas amigas do casal dono da casa onde acampávamos. Entramos todos no carro e seguimos para o churrascão, mas meu pai não conhecia bem aquela região, principalmente porque era em algum sitio perdido no meio do mato, enquanto estávamos na estrada de asfalto era tranquilo, mesmo a noite, mas quando pegamos a estrada de chão, aí o bicho pegou, ninguém sabia como chegar no sitio, e não conseguíamos ver as placas que deveriam estar no caminho pra ajudar, simplesmente não estavam visíveis a noite, em certo momento meu pai estressou de tal forma que soltou uma frase que lembro como se ele estivesse falando agora:

– Daqui a pouco vamos parar lá na casa do caralho!

Eu e meu irmão sem entendermos perguntamos:

– Pai, onde é a casa do caralho?

Todos no carro começaram a rir muito e meu pai continuou todo sério, como vi que todos estavam rindo, fiz outra pergunta:

– Pai, quem é o caralho? É algum amigo seu?

Minha mãe e as duas mulheres riam descontroladamente, e meu pai lá todo sisudo, acho que arrependido por ter falado o palavrão e eu estar lá repetindo aquilo, mas juro que naquela idade eu não tinha idéia do que estava falando, mas como todos riam eu emendei mais uma:

– Então vamos logo pra casa do caralho pai!

E comecei a pular feliz dentro do carro.

– Vamos pai, vamos!

– Pára de falar besteira Edward! – gritou meu pai comigo.

– Não fica repetindo uma coisa que você nem sabe o que é! – emendou rispidamente.

Na hora sentei e fiquei quieto, e sem entender nada olhei pro meu irmão que estava manso no colo de uma das mulheres, todos ficaram quietos dentro do carro, na verdade a única que ainda disse alguma coisa foi minha mãe, que deu uma cotovelada de lado no meu pai e disse:

– Edward é?

Depois disso ela pegou a lanterna que tinha no carro e foi andando fora do carro pra procurar as placas que deveriam estar na beira da estrada.

Quando chegamos na festa, muito tempo depois devido a termos voltado até a estrada de asfalto pra refazermos o caminho corretamente, fui correndo pra ficar com meus primos, e foi lá que eu descobri onde era a “casa do caralho”, ao perguntar para o meu primo mais velho, ele respondeu pra todos:

– É aqui ó! – e segurou o saco pela bermuda e ficou balançando pra nós vermos.

Minha vontade foi de ir pedir desculpas para meu pai, mas ele parecia já ter esquecido do ocorrido dentro do carro, pois estava até dançando forró com minha mãe.  🙂

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