Limpando a Barra

por eduardopmorris

Tá certo que eu nunca fui santo, mas de vez em quando tentava limpar minha barra, tipo fazer uma boa ação ou ficar um dia sem incomodar alguém.

O problema é que quando isso não dava certo eu era colocado na roda de tal forma que só faltava colocar em um quadro “Micão do Mês”, isso tudo porque não gostava de ficar em segundo, se tinha que fazer algo, que fosse de forma perfeita, como (quase) eram com as coisas erradas.

Intonces, um belo dia lá estava eu naqueles dias de calmaria e como muitos costumavam dizer “o pinto estava brocha”, não entendia que porra era aquela de brocha, mas sabia que era algo relacionado a eu estar quieto, mais tarde fui entender que merda era essa. Pois bem, semana de calmaria e lá estava eu agoniado por ter que ficar “brocha”, então surge um zum zum zum que a Diretora da escola (a outra que não era a madrinha do meu irmão) ia nos visitar pra ver como nossa turma estava se comportando. Confesso que se fosse a madrinha do meu irmão NADA adiantaria, se eu estivesse dormindo durante a visita dela, ainda assim era capaz de eu tomar um beliscão por ela achar que dormir era parte de algum “plano maligno”, mas como não era, eu tinha que caprichar, então ao invés de ficar brincando no recreio, fiquei na sala arrumando minhas coisas, mas na moita né, ninguém podia ficar na sala de aula vazia, nem mesmo se fosse de castigo, então fingi que ia no banheiro e escapei pra sala de aula enquanto arrumava minhas coisas notei que ainda assim as coisas dos outros estavam mais arrumadas do que as minhas, então não me restava muito a fazer a não ser…. bagunçar as coisas dos outros! Nosso material ficava organizado em caixas debaixo de cada cadeira, então o que fiz, fui em cada um dos meus “concorrentes”, rabisquei e amassei as suas devidas caixas, até mesmo a caixa do meu melhor amigo sofreu um certo dano, mas pouca coisa, afinal era meu melhor amigo e filho da Diretora que ia nos visitar. Olhando assim de relance, minha caixa até tinha um certo destaque em arrumação. Coisa linda de se ver!  🙂 Terminado o serviço, voltei pro recreio como se nada tivesse acontecido.

Ao voltarmos pra nossa sala nem deu muito tempo de verificarmos como estavam as nossas caixas, afinal teoricamente estava tudo certo. A professora pediu que os meninos fizessem logo uma fila e fossem dois de cada vez ao banheiro pra poder lavar o rosto e se “arrumar”, mas as meninas nem tinha muito o que fazer, afinal elas impressionantemente não suavam!!! Nunca entendi esse milagre que as meninas conseguiam realizar, mas voltando ao meu caso, notei que os meninos estavam lavando o rosto na pia com sabonete pra não ficar com cheiro de cachorro molhado, e antes de chegar a minha vez, o menino que estava na minha frente fez uma coisa diferente, ele também molhou o cabelo e isso fez com que a professora rasgasse elogios pra ele, pois o cabelo estava todo bonitinho, então lá fui eu pro banheiro tomar meu banho de pinto (trocadalho do carilho), lavei meu rosto com sabonete e comecei a molhar meu cabelo, mas tive uma idéia sensacional nesse momento, porque não passar sabonete no cabelo??? Caracas, eu ia ganhar mais elogios que todos, pois além de estar cheiroso ia ter a caixa menos bagunçada. Então comecei o processo de lavar o cabelo, tirei minha blusa, passei o sabonete no cabelo e depois molhei e lavei o cabelo, terminado isso, me enxuguei, coloquei a blusa novamente e pra não demorar mais ainda fui arrumando o cabelo enquanto voltava pra sala de aula. Ao chegar na sala notei que todos me olhavam, exatamente como planejado, então a professora, que já estava sentada, levantou e veio em minha direção com uma cara de “que porra é essa?”, eu crente que ia ganhar um elogio, até abaixei a cabeça, pra ajudar na ceninha de santo. Então a professora parou na minha beira e perguntou: “Pintinho o que é isso no seu cabelo?”. Eu todo bobo e feliz levantei a cabeça e disse que tinha lavado a cabeça com sabonete pra poder ficar mais cheiroso pra diretora, aí a professora respondeu: “Até gostei da sua ideia, mas acho que seria melhor se você tivesse tirado o sabonete da cabeça!”.

Eu fiquei sem entender porra nenhuma e comecei a olhar pros lados, TODOS da sala estavam rindo da minha cara, mas não era rir do tipo “que legal”, era rir do tipo “se fudeu!”. Olhei pra minha mão e notei que ela estava com um negócio branco, então passei a mão no cabelo e notei que tinha MUITA coisa branca, e esse negócio branco era o sabonete, tanta gente tinha usado o sabonete que ele estava todo molengo, então quando passei no cabelo seco, ficou tudo grudado, na pressa de voltar pra sala de aula não olhei no espelho e nem notei que minha mão tinha ficado cheia de negocio branco quando me “penteei”.

Meu primeiro instinto foi de levantar e correr pro banheiro e tirar o sabonete do cabelo, mas quando saí da cadeira a diretora brotou na porta da sala e a professora, que esboçava rir da minha cara, me fez sentar na marra.

A diretora deu um sorrisinho, afinal TODOS riam na sala, e perguntou qual era a graça daquilo tudo, no mesmo instante os félas apontaram o dedo pra mim e começaram a gritar coisa desconexas onde as palavras chaves eram: cabelo, pintinho, branco, sabonete e burro. Só não chorei pra não dar o braço a torcer, e não me chamem de bobão, pois quando se tem 7 anos e é zoado pela turma toda, fica-se um trauma fuderoso, tudo bem que sempre fiz por merecer, mas poxa vida, vocês não ficaram nem com um pouco de pena de mim?

Pra terminar a história, a diretora também esboçou rir da minha cara, mas deu pra notar que ela segurou e fez o favor de me deixar ir no banheiro tirar aquela meleca branca do meu cabelo. Quando consegui tirar o sabonete do cabelo e voltar pra sala a diretora já tinha ido embora e pelo que percebi das conversas, NINGUÉM notou nas caixas debaixo da cadeira. Acho que ficaram o tempo todo rindo da minha cara!!!!!

Daquele dia em diante, fui outro na escola, pelo que me lembro, essa foi a ultima vez que aprontei alguma na escola, não tinha clima pra fazer nada depois de ser caçoado pela turma toda, pela professora e pela diretora. E pra falar a verdade acho que o sorriso da minha mãe, quando cheguei em casa naquele dia, também tinha um “a justiça divina foi feita”!

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