Herança de Família

por eduardopmorris

Sempre notei que uma pergunta recorrente na minha família era “de quem esse menino puxou essa mania de fazer coisa errada?”, meu irmão e meus primos não tinham a mania de brigar na escola por qualquer besteira, muito menos de ficar cortando os outros na tesoura, isso sem contar ficar beijando as meninas sem pedir licença ou ficar espiando pelo buraco da fechadura.

Mas um dia meu avô estava conversando comigo e com meu irmão no colo enquanto eu contava algumas das coisas que eu aprontava na escola, ele me deu alguns conselhos e dicas, e nos fez uma confissão, ele nos contou algo que explicava um pouco do meu jeito. Meu avô nos contou que logo que eles chegaram no ES não foi fácil para minha mãe e minhas tias, pois elas não conheciam ninguém e por isso ficaram um pouco deslocadas no bairro onde moravam, como era período de férias não tinha nem escola pra elas poderem socializar em algum lugar. Meu avô trabalhava como vendedor, então na primeira semana deles no ES, o chefe dele deu uma semana pra eles se adaptarem a nova casa, então nesse período meu avô ficava vigiando de longe minha mãe e minhas tias brincando na rua. Minha mãe era a segunda filha mais nova então ela sentia a responsabilidade de defender a minha tia mais nova, não só sentia, mas meus avós faziam com que ela se sentisse assim. No primeiro dia que elas foram brincar na rua sozinhas, meu avô disse que apareceram uns meninos que ficaram implicando com elas, e ficavam jogando pedrinhas pra acertá-las minha mãe se embucetou com aquela situação, ficou de pé pegou a maior pedra que cabia na palma da mão dela e jogou no maior menino do outro grupo, meu avô disse que nunca havia visto pedrada tão certeira, foi no meio da testa do moleque, que na hora caiu pra trás e começou a chorar, logo depois os meninos foram embora e minha mãe sentou no chão e continuou brincando com minha tia, meu avô disse que ela nunca contou essa história pra ele, nem pra ninguém, e mesmo ele sabendo que deveria ter chamado a atenção da minha mãe por causa da pedrada, ele nunca o fez, pois no entender dele minha mãe estava cumprindo com a obrigação de irmã mais velha naquele momento.

Até hoje fico tento imaginar minha mãe dando pedrada em um menino mas a cena não encaixa, não da pra fixar a cena de minha mãe brigando na rua, mas depois de ouvir essa causo eu entendi o que tinha acontecido há um tempo atrás.

Certa vez estávamos brincando na frente do prédio onde morávamos, éramos eu, meu irmão e um vizinho nosso, lá pelas tantas começamos a ter uma daquelas brigas de crianças, e entre um “feio” e “bobo”, meu vizinho caiu na merda de abaixar pra fingir que ia pegar uma pedra e tacar no meu irmão, antes que meu irmão pudesse pensar em se defender, eu agachei, peguei a primeira pedra que minha mão alcançou e taquei na testa do meu vizinho, e ele nem tinha ficado de pé ainda. Só lembro de ter tomado um puxão pra trás, ter rodado e caído no chão, levantei rapidamente e notei que meu irmão estava acudindo nosso vizinho, ele olhou pra mim, fez um não com a cabeça e berrou minha mãe que apareceu correndo junto com a mãe do nosso vizinho, ninguém brigou comigo na hora, só pegaram o perdedor do duelo nos braços e o levaram correndo para a farmácia mais próxima. Quando minha mãe voltou ela me pegou calmamente pelas mãos e me levou pra dentro de casa, lá dentro ela sentou comigo e perguntou porque eu tinha feito aquilo. Eu respondi que tinha tacado a pedra nele por achar que ele ia acertar meu irmão. Na hora minha mãe não falou mais nada, só me abraçou e me deu um beijo no cocoruto.

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