Clubinho

por eduardopmorris

Íamos bastante ao cinema quando éramos crianças, lembro que todas as férias tinha filme dos Trapalhões, e todos os primos iam juntos assistir, quer dizer depois de um tempo alguns começaram a entrar na pré-adolescência e por isso não se misturavam mais com os menores, tal qual meu pai havia previsto.

Os filmes dos Trapalhões definitivamente marcaram a infância de todos naquela época, mas teve um filme que me marcou mais, não por ser melhor do que os Trapalhões, mas por ter um grupo de crianças no papel principal, os Goonies!

Decorrente daquele filme tivemos que mudar e extinguir o Clube dos Meninos, onde menina não entrava, como os Goonies tinham meninas no grupo deles precisávamos nos adaptar a esta nova moda de ter meninas no grupo, então tão logo chegamos na casa da minha avó no dia seguinte ao filme, já fomos para o terraço, onde ficava o nosso clube, a primeira coisa feita foi retirar a placa de “Menina não entra”, na verdade essa placa não ficava lá sempre, tínhamos um “acordo” de divisão de propriedade, pela manhã era a “Butique das meninas” e de tarde era o “Clube dos Meninos”, a placa das meninas estava escrito “Só entram meninas” e segundo minhas tias isso mostrava que tudo girava em torno das mulheres, pois ambas as placas citavam as meninas. Só fui entender isso muitos anos depois dos clubes acabarem. Pois bem, naquele dia os clubes se uniam e nascia o “Goonies”, que era o nome criativo que decidimos dar ao nosso clube misto. Depois fizemos a nova placa com uma nova frase de efeito, frase esta que foi muito zuada pelos tios, tias e primos maiores, lá estava escrito: “Só entra Pinto”. Pronto, o clube estava criado e começamos com a arrumação do terraço. Minhas tias gostaram da idéia, pois há muito tempo elas programavam uma arrumação lá, mas ficaram com certo receio, afinal de contas que arrumação um monte de crianças poderiam fazer?

Começamos separando as caixas, entulhos e colocando no centro do terraço, dessa forma ganhamos mais espaço nas laterais, depois varremos o terraço e passamos um pano úmido, separamos o terraço em “salas virtuais”, pois assim cada um teria seu espaço pra poder arrumar da forma que achasse melhor. No meio da arrumação achamos um rolo de barbante e uma caixa de copos descartáveis, com isso fizemos alguns telefones para que pudéssemos nos comunicar no terraço, na verdade não precisava, mas ficava mais legal com telefones. Enquanto isso tudo acontecia, meus tios e tias estavam, como de costume, no quintal de trás da casa de minha avó, arrumando tudo para almoçarmos ao ar livre. Achamos também muitos potes de tinta daqueles que se usam na escola, de várias cores, e com isso nosso clubinho ganhou cores que nunca estariam no mesmo ambiente de qualquer casa de adultos.

O quintal de trás da casa da minha avó tinha um tanque onde muitas vezes tomávamos banho, quando cabíamos dentro dele. De repente ouvimos um grito de uma de nossas tias vindo lá do tanque, quando chegamos na beira do terraço pra ver o que estava acontecendo, nossa tia caçula já estava subindo as escadas do terraço com cara de MUITO brava. Quando ela viu o terraço cheio de barbante passando pelo teto com copos pendurados nas pontas, um monte de parede pintada com tinta escolar e o chão pintado com divisões como se fossem cômodos, ela endoidou e começou a xingar todo mundo de filho da piiiiiiiiiiiiii, mandou todos pra piiiiiiiiiiii que pariu e por aí foi, ela só parou quando nosso avô foi buscá-la.

Nosso avô era um cara tranquilão, costumava ficar contando causos da infância dele e de nossas tias, era o nosso principal defensor, sempre que alguém pensava em não nos deixar brincar de alguma coisa, ele intervia e dava o aval dele, geralmente quando isso acontecia não fazíamos besteira, pois não queríamos decepcionar o nosso avô, minha avó era sempre desconfiada com as nossas brincadeiras, sempre achou que podíamos terminar nos machucando feio por brincarmos no terraço, subir no pé de manga ou ficarmos pulando muros e portões, e como vocês já leram ate agora, muitas vezes ela acertou.

Voltando a confusão com minha tia, o que tinha acontecido era o seguinte, a caixa d’água da casa de nossa avó ficava no terraço, e por preguiça nossa ao invés de descermos pra pegar água no tanque para nossas arrumações começamos a usar a água da caixa d’água, quer dizer, passamos pano, limpamos o pano, limpamos os pinceis e tudo o mais com a água que era utilizada pra tudo dentro da casa, e por conta disso a água estava saindo toda escura e com tuchos de poeira. Além disso todo o barbante, copos e tinta utilizados eram materiais que minha tia estava guardando pra devolver para os alunos dela, pois as aulas tinham acabado e alguns alunos tinham viajado antes do término destas. Quem nos contou isso tudo foi o nosso avô mesmo, mas contou isso de uma forma legal, sentado no terraço com todos os netos em volta, ele dizia que como membro sênior (não sabia que porra era essa!) se alguém tivesse que brigar conosco, teria que brigar com ele também e ele tinha certeza que isso não aconteceria, pois ele não era membro sênior só do nosso clube, mas da casa toda, mas ele nos disse também que não poderíamos ficar mexendo no que não era nosso, que precisávamos pedir autorização pra mexer no que não era nosso, com relação a caixa d’água, não era para nos preocuparmos, ele entendeu nossa boa intenção, mesmo que viesse junto com a preguiça e muito desperdício de água, pois a única forma de limpar toda a água da caixa d’água era esvaziando geral, mas que mesmo assim isso servia pra alguma coisa, pois decorrente do esvaziamento da caixa d’água meus tios tinham cumprido com um antigo prometido de lavar a caixa d’água, a única coisa que ele nos pediu foi que ficássemos bem longe da nossa tia , mas só por umtempo, assim evitaríamos possíveis futuros problemas. Nosso clube não acabou naquele dia, meu avô nos eximiu da tarefa de limparmos tudo que havíamos pintado, e nosso clube ficou bonito até o dia que paramos naturalmente de brincar no terraço da casa de nossa avó.

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