Cachorro Louco

por eduardopmorris

Eu era uma criança muito, mas muito incomodada com as coisas e por isso não podia ver as coisas quietas que já dava um jeito de colaborar com o caos: na sala de aula, no pátio da escola, em casa ou na casa de minha avó com meus primos.

Certa vez estávamos brincando de pique-alguma coisa e lá estava eu correndo pra lá e pra cá, mesmo sem ter ninguém querendo me passar o pique, na verdade nem sei se eu realmente tinha sido convidado a brincar com as outras crianças, mas o importante é que eu estava correndo. Uma certa hora parei de correr e vi um menino da minha sala quieto no meio do pátio lanchando, aquilo estava muito normal e lá fui eu correndo em direção ao dito cujo, ao passar por ele segurei na blusa dele e puxei com força, o moleque rodou igual a um pião e caiu no chão, parei de correr e fiquei olhando e comecei a rir e apontar o dedo pra ele. O moleque levantou na mesma hora e veio atrás de mim, comecei a correr com toda minha vontade e continuei rindo, fiquei lá correndo pelo pátio, me esquivando das outras crianças e ouvindo as professoras gritando meu nome, de repente, quando achei que o moleque tinha desistido de tanto correr, diminui a velocidade e olhei pra trás, nessa hora fui atropelado pelo endemoniado. Na hora que ele me pegou pra bater as professoras chegaram e nos recolheram pra deixar de castigo, ele me jurou de morte enquanto estávamos lá de castigo no pátio, eu suando como um porco no abate nem queria saber e ficava fazendo língua pra ele. Minha sorte foi que a madrinha do meu irmão não estava na escola nessa hora, senão eu não estaria tão abusado ainda.

Terminou o recreio e fomos pra sala de aula em fila indiana, como a fila era de ordem crescente de altura, sempre fui à frente de todos e chegava à sala correndo como o Forrest. O merda do menino sentava na minha frente, mas entrava na sala bem depois de mim. Quando o féladaputa entrou na sala não pensou duas vezes e partiu pra cima de mim, como a professora ficava na porta verificando se não haveriam fugitivos da fila, ela não viu quando o puto veio pra cima do anjinho (eu, no caso). Quando o corno me pegou foi meio que na correria então quando dei por mim a cadeira já tinha virado com nós dois. Estar por baixo em uma briga não é bom, principalmente quando não se sabe brigar, se é pequeno e magrelo. Quando vi que o viado ia me dar uma surra histórica e me fazer passar vergonha no meio da sala, não pensei duas vezes e sentei a dentada no braço dele, mas mordi com força, que nem pitbull quando morde pneu. Lembro de ter tomado um tapa na cara do bichinha, mas ele não agüentou e começou a chorar e chamar a professora, mas o que me fez abrir a boca foi o susto que tomei logo em seguida, pra meu espanto quem apareceu, como se fosse um ninja que surge do nada, me pegando pela orelha era a madrinha do meu irmão. Fiquei MUITO assustado quando a vi ali do meu lado, tipo assim, FODEU!!!! Comecei a chorar só de pensar que dessa vez a casa realmente tinha caído e comecei a gritar dizendo que a culpa não era minha, que ele tinha começado a briga e etc., mas ela me conhecia de longa data e nem o melhor advogado do mundo poderia me livrar da pena que já estava imposta há muito tempo atrás.

Fui pela orelha até a diretoria e lá me colocaram sentado. Daqui a pouco vejo o fresquinho passando na frente da sala da diretoria com a professora e um pano branco enfaixando o braço. Quando a professora voltou me lançou um olhar do tipo “sai desse corpo que não te pertence” e foi direto conversar com a madrinha do meu irmão, a Diretora. Creio eu que ela tenha entregue o serviço todo. Quando ela saiu da sala senti que ela passou um pouco mais afastada de mim, como se eu fosse um cachorro louco prestes a atacar. Logo depois ouvi vozes no telefone, algo do tipo: “Sim, de novo”, “Não sei mais o que fazer”, “Está com as freiras” e “É um juiz”.

Quando a ligação terminou fui chamado a entrar na sala e fui informado que minha mãe estava indo me buscar. Mas a madrinha do meu irmão sabia que isso não bastaria então ela começou a conversar comigo: “Pintinho você sabe que não está certo morder seus amiguinhos. Não sabe?”. “Mas ele não é meu amigo tia.”, respondi em minha defesa. Ela colocou a mão na cabeça e disse “Não pode morder ninguém Pintinho. NINGUÉM”. “Mas foi ele que começou tia. Eu não tava fazendo nada. Pode perguntar pra todo mundo” respondi torcendo pra professora ter esquecido de contar do pátio, mas infelizmente não tive essa sorte. “Pintinho, a professora me disse que você já tinha empurrado ele no recreio e por isso ele te empurrou na sala.”, disse ela. “Mas eu não empurrei ninguém tia, eu tava brincando de pique no pátio e ele entrou na minha frente, quando fui me desviar puxei ele sem querer. Juro.”, menti, torcendo pra ela acreditar nessa balela. Acho que ela começou a perder a paciência, pois as bochechas começaram a ficar vermelhas e ela mandou eu parar de mentir.Minha ultima tentativa era partir pro drama e me fazer de vitima, então mandei a seguinte: “Poxa tia, tudo é culpa minha, se alguém cai da cadeira a culpa é minha, se a blusa de alguém aparece cortada a culpa a minha e até quando a professora chora a culpa é minha.”. Ela ficou ali olhando e medindo, aquela criança com 7 anos de idade que se fazia de coitada. Tudo bem que tudo isso que acabia de citar foi realmente minha culpa, mas essa não era bem a hora de ficar admitindo meus erros, tinha que dar um jeito de me livrar do que vinha por aí, eu sabia que quando minha mãe chegasse o pau ia comer independente de onde eu estivesse. Enquanto eu ficava ali pensando se daria certo ficar correndo da minha mãe no pátio, pra não apanhar, fui surpreendido por uma ameaça que me atormentou a infância: “Pintinho, o pai do Dudu é um juiz. Sabe o que os juízes fazem? Eles mandam prender as pessoas, mas como você é criança ele não poderia prender você, mas tem uma coisa que eu poderia fazer e tenho certeza que sua mãe não ia ligar. Se você voltar a morder qualquer pessoa aqui na escola, ou até mesmo seu irmão, vou te levar em um dentista e mandar arrancar todos os meus dentes. TODOS.” Era a quarta ou quinta vez que ouvia essa ameaça, mas nunca dela, minha mãe já tinha falado isso, minhas tias já tinha falado isso, até minha avó já tinha falado isso, mas a madrinha do meu irmão conseguia falar isso com uma certeza tão grande que parecia que a consulta com o dentista já estava até marcada. Depois desse dia meu irmão e o mundo ficaram livres dos meus dentes.

Quando meu pai chegou pra me buscar, graças a Deus minha mãe trabalhava em um lugar fora da cidade de Vitoria, ele só me olhou com um olhar do tipo: “De novo?” e foi conversar com a madrinha do meu irmão, não escutei nada da conversa, pois eles fecharam a porta, mas quando ele saiu da sala me pegou pelo braço e me levou embora sem falar nada. Fomos até a casa da minha avó sem trocarmos uma única palavra. Esse era o pior castigo que eu poderia receber, a indiferença, mas funcionava. Nunca consegui traquinar nada na minha cabeça quando meu pai estava por perto, era como se fosse a minha kriptonita, mas os meus dentes terem se aposentado não significava que eu teria que parar, desde que eu não usasse meus dentes, estava quase tudo bem. 😉

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