Cabeça Dura III

por eduardopmorris

Ainda não contei muita coisa da casa da minha avó, que foi o segundo lugar onde passei a maior parte da minha infância, hoje em dia não sei quantos ainda conseguem ter a experiência de ter a casa da avó com o ponto de encontro da família, creio que isso esteja ficando raro.

No final de semana era praticamente obrigatório encontrar com a “primaiada” pra brincar, almoçar com a família, só sair de lá pra dormir em casa e ter como encerramento do final de semana em família o programa dos Trapalhões, depois disso ainda íamos comer hambúrguer em um trailler, e por muitos anos essa foi a minha adorada rotina.

Mas nem tudo eram flores, um monte de primo junto de diferentes idades e na maioria meninos, não podia sair coisa boa, brincávamos de tudo, desde corrida em volta do quarteirão, até de clube dos meninos (onde menina não entra), plantávamos uma horta, jogávamos futebol, trepávamos no pé de manga pra comer da fruta fresquinha tinha até uma brincadeira besta de pular o muro pra casa do vizinho pra depois ver quem conseguia pular de volta antes que o cachorro pegasse.

Na rua da minha avó tinha um mendigo que era o “homem do saco”, o terror da criançada, e os adultos faziam questão de nos manter com medo do sujeito, imaginem um cara sujo, mas sujo e fedorento que da nojo de lembrar, o cara tinha cabelo rastafári (no sentido de sujo) sem precisar fazer nenhum esforço, quando ele pintava na esquina da casa da minha avó era um Deus nos acuda, não ficávamos nem no quintal da casa da minha avó, ficávamos dentro de casa esperando ele passar e se afastar depois da outra esquina, alguma vezes o féladaputa parava na frente da casa da minha avó pra curtir a sombrinha da castanheira, aí tínhamos que ficar brincando de qualquer outra coisa, certa vez uma das minhas tias nos fez ensaiar a parte musical do filme “A Noviça Rebelde”, neste dia deixamos de ser os Pinto pra nos tornarmos os “Von Trappinto”, aprendi a gostar de musicais com aquele filme.

Um belo dia minhas primas estavam brincando de vendinha em frente da casa da minha avó, vendiam qualquer coisa, desde suco azedo de limão, até revistinhas velhas da Turma da Monica, nós, os meninos, ficamos da esquina implicando com as meninas, falando que o suco era azedo e ruim, as revistinhas eram feias porque não eram de super-heroi, e ficávamos ameaçando de ir lá quebrar tudo no chute, nossas primas só sabiam fazer língua e nos chamar de bobos, de repente olho pro lado e meu primo maior começou a correr em direção a banca das meninas, fiquei espantado pois não estava acreditando que ele ia realmente dar um bico na banca de vendas das meninas, mas ele passou direto e entrou na casa da minha avó, achei que ele estava com algum problema, pois notei que as meninas ficaram gritando pra dentro do quintal da minha avó perguntando o que tinha acontecido, de repente elas deram um berro e largaram tudo como estava e entraram ainda gritando, olhei pra trás pra ver meus primos que não estavam dando muita importância pra aquilo tudo, quando dei um berro “O HOMEM DO SACO”, mas fiquei tão espantado com o vulto que tinha visto que nem sai correndo, pois ele havia sumido atrás de um carro, meus primos viraram espantados e não viram nada e começaram a me dar tapas na cabeça, quando do nada pararam de me bater e começaram a correr, quando saíram do meu entorno, vi aquela merda de sujeito correndo cambaleando em minha direção, virei pra correr com tudo que tinha nas pernas, meus primos maiores já estavam passando pelo portão da casa da minha avó, enquanto eu passava correndo por um dos meus primos menores, os putos dos meus primos passaram pelo portão e trancaram o mesmo, então quando cheguei no portão não dava tempo de abrir o portão passar, esperar pelo meu primo menor entrar e depois fechar o portão então fiz a única coisa que eu poderia fazer, pular o portão, o portão da casa da minha avó era pequeno para um adulto, mas para uma criança de baixa estatura, era IMENSO, então comecei a escalar a portão pra poder pular, quando já estava do outro lado do portão, quase chegando no chão, ouvi um grito, senti o portão balançando todo e cai todo cambaleando, tropecei, bati a cabeça na mangueira e desmaiei novamente com a pancada. Quando acordei estava no colo de meu pai, com uma faca pressionando minha cabeça, meus primos maiores estavam de castigo em um canto da sala e o menor estava no colo de minha avó, que estava dando alguma coisa pra ele cheirar, depois de acordado, meu pai parou de pressionar a faca na minha cabeça e me deu um pano com gelo dentro, desci do colo dele e fui pra perto dos meus primos que estavam de castigo, pra saber o que tinha acontecido com o Homem do Saco, aquele putocorno, como eles estavam de castigo e virados pra parede, tinha que ficar de costas viradas pra eles também enquanto conversávamos, eles me contaram um negocio que me fez rir MUITO. O que tinha acontecido era o seguinte, o “sem mãe” do Homem do Saco tinha parado de correr atrás da gente bem antes de chegar no portão da casa da vovó, ele só nos deu um susto, mas não é isso que era engraçado na história, lembram que meu primo menor estava correndo atrás de mim? Pois bem, como eu tinha escalado o portão ele foi fazer a mesma coisa, então se o portão era imenso na minha perspectiva, imaginem na dele, meu primo menor conseguiu escalar o portão com muito custo, mas quando chegou lá em cima um dos meus primos, que enquanto eu ouvia esta história estava lavando louças por castigo, deu um berro “OLHA O HOMEM DO SACO ATRAS DE VOCÊ!”, nisso meu primo menor que estava no alto começou a gritar de cima do portão sacudindo o mesmo e DESMAIOU, quando imaginei a cena do meu primo menor desmaiando pendurado no portão, não segurei e comecei a rir, principalmente por achar que a culpa da minha queda tinha sido em parte dele, eu ria sem me conter, quando ouvi um berro “PINTINHOOOOOOO”, era minha avó que chamava minha atenção por eu rir do primo caçula e conversar com os mais velhos, o resultado dessa minha falta dupla foi enxugar a louça toda que tinha sido lavada pelo primo sacana que ajudou na minha queda, quer dizer o sacana do meu primo mais velho me ferrou 2 vezes com um único berro, mais isso ia ter volta…..

Anúncios