Beijoqueiro

por eduardopmorris

Não tive muitas namoradas, na verdade só tinha namorado uma menina até então, na verdade foi um namoro em sociedade, como já disse antes, porém após ler “O Menino Maluquinho”, vi que precisava melhorar este quesito, afinal eu me achava “O” menino maluquinho.

Como minha experiência com namoradas não podia ser tomado como base pra NADA, terminei tendo um conceito errado de namorada, então achava que não bastava eu achar que a menina era minha namorada, era necessário também beijá-las e pensando nisso determinei que eu deveria ter tantas namoradas quanto fosse necessário para ter mais um item cumprido na meta de menino maluquinho.

Qual era a idéia? Se eu gostava de uma menina eu precisava beijá-la pra que ela automaticamente se tornasse minha namorada, desculpem a comparação, mas é como os machos do mundo dos animais irracionais fazem, marcando o território! Beijou, tá marcada‼‼ Como funciona mais ou menos nas micaretas atuais, sendo que nas micaretas é de forma mais bagunçada, porque se todo mundo beija então a mulher é de todo mundo.

A primeira da minha lista foi a filha da madrinha do meu irmão, e o motivo era simples, eu era o menor da turma então ficava complicado beijar as meninas maiores que eu, e como ela era mais ou menos da minha altura e era (e ainda é) muito bonita, foi escolhida pra ser minha segunda namorada. Então um belo dia enquanto estávamos no recreio chamei-a no cantinho secreto do pátio e assim que ela sentou na minha frente dei-lhe um beijo na boca antes que ela pudesse pensar em respirar. Foi um beijo rápido, mais pra um selinho do que qualquer outra coisa, mas para as crianças da minha época não existia esse negócio de selinho, beijo na boca era beijo na boca e ponto final. Ela ficou ali me olhando com cara de pata choca e perguntou:

– O que foi isso?

Eu olhei pra cara dela e respondi:

– Um beijo. Isso quer dizer que estamos namorando!

– Ah não Pintinho! Eu já estou namorando Tonin.

Tonin era meu melhor amigo, filho da outra diretora. O trairão tava namorando e nem me chamou pra sociedade!!! Palhaçada!!!

– Pintinho, não me beija mais assim senão vou contar pro Tonin. E ele vai te dar um soco na cara que nem o Popeye.

Já não bastava a sacanagem dele não me chamar pra dividir a namorada, ainda marcava o território de forma tal que nenhum outro pudesse chegar perto.

Depois do recreio voltei pra sala de aula e tão logo nós sentamos nas nossas cadeiras eu notei que a professora ia ensinar uma letra nova, então na hora que vi que ela começou a escrever o S cursivo saquei que ia ser um tal de SA, SE, SI, SO, SU que ia durar a aula toda, então fiz logo minha atividade da aula e fiquei lá fazendo o que hoje chamam de pesquisa de campo. Fiquei olhando para as meninas e tentando imaginar quem não estaria namorando com o Tonin, afinal de contas ele já poderia ter “marcado” todas as meninas da sala. Então olhava pra cara de cada uma e notei algo interessante, TODAS as meninas sentavam perto de Tonin, TODAS!!!! Quer dizer, exceto uma, que não só não precisaria sentar perto do Tonin, como, mesmo que sentasse, não poderia namorar com ele: A IRMÃ GEMEA!!!! Fiquei olhando pra Tonia e de repente notei o quanto ela era linda, e embora fosse um pouco maior do que eu, se estivesse sentada no chão não seria problema nenhum pra minha altura, muito mais tarde na minha vida descobri que deitada faria menos diferença ainda.  🙂

Naquele dia não poderia fazer mais nada, pois depois daquela aula teríamos Educação Artística e faríamos alguma atividade na própria sala de aula, então sem pátio, sem beijo!!!

No dia seguinte já estava tudo planejado, durante o recreio eu iria chamá-la no cantinho secreto e faria dela a minha namorada. Não lembro do que aconteceu no restante daquele dia, nem mesmo no dia anterior, pois tudo agora girava em torno do próximo recreio. Tudo bem que se pararmos pra analisar eu estava me contentando com muito pouco, pois pra quem tinha na meta ser o próximo Menino Maluquinho e ter várias namoradas, me contentar com uma única namorada parecia mais um prêmio de consolação. Mas dane-se! Antes uma do que nenhuma!!!

Chegado o recreio, fui numa ansiedade tal pra cima dela que até me assustei quando tomei um puxão pelo braço, olhei assustado pra trás e vi que era minha professora, fiquei tão afoito que esqueci que durante o recreio lanchamos antes de brincarmos. Fui colocado na minha cadeira e lanchei, nem rápido, nem devagar, lanchei na velocidade que minha futura vitima namorada lanchava, como ela lanchava devagar, pois ficava conversando com as outras meninas, demorei a levantar da mesa aquele dia, e uma coisa interessante aconteceu, notei que ela olhou pra mim e depois voltou para as outras meninas rindo, achei que aquilo poderia ser um sinal e que talvez as coisas seriam mais fáceis do que estava imaginando. Terminei lanchando mais rápido e levantei antes dela da mesa, enquanto estava no pátio me chamaram pra jogar futebol de tampinha de garrafa, mas neguei, me chamaram pra brincar de pique cola 3 vezes, coisa raríssima, mas neguei novamente, tão logo Tonia levantou da mesa e encaminhou-se para o meio do pátio, fui atrás dela e assim que as meninas baixaram a guarda peguei Tonia pelo braço e chamei pro canto secreto, ela foi numa boa e até sentou no chão antes que eu pedisse, fiquei empolgadão com aquilo, se eu entendesse mais das coisas naquela época eu diria que estava excitado ou com um puta tesão daquela situação. Sentei devagarzinho, pois estava prestes a ter a minha primeira verdadeira namorada, afinal de contas eu tinha sido namorado de uma menina doida, o que é bem diferente de alguém ser minha namorada, se é que me entendem. 🙂

Quando terminei de sentar ela já foi dizendo:

– Você não pode me beijar Pintinho! Senão meu pai corta seu pinto fora!!!

Sentei e fiquei ali olhando pra cara dela.

– Vandinha me disse que você beijou ela e eu contei pra minha mãe, que contou pro meu pai e meu pai disse que se você me beijar ele vem aqui na escola e corta seu pinto fora. – disse ela emendando antes que eu pudesse pensar em pensar.

E antes que eu pudesse pensar em piscar, ela levantou-se e foi brincar com as outras meninas.

Fiquei ali o restante da recreio e quase esqueci de voltar pra sala de aula, também não lembro de mais nada daquele dia, mas aquilo me marcou, pois ficou na minha cabeça que os pais das meninas cortavam o pinto dos meninos que beijavam na boca das suas filhas. Uma palavra resume o ocorrido: TRAUMA!

Demorou pra eu voltar a beijar alguma menina, demorou muito, mas é claro que eu voltei a beijá-las, pois nada melhor pra fazer um trauma passar do que o tempo.

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