A Volta

por eduardopmorris

Na minha infância passei pela fase de ser o brigão da sala, na verdade com meu tamanho eu seria no máximo o “briguinha” da sala, briguei algumas vezes na escola, mas a madrinha do meu irmão me convenceu pedagogicamente que ficar sem os dentes não seria saudável. Na minha família não tinha como sair no braço com ninguém, pois abaixo de mim só existiam 2 primos, que por serem os menores eram intocáveis, existiam também as meninas, mas bater nelas seria de uma covardia extrema, ou não, pois se apanhasse de uma das minhas primas eu precisaria trocar de família devido a vergonha que eu passaria pelo restante da minha vida.

No quarteirão da casa da minha avó existiam outras crianças, e só pela simples existência delas elas já eram nossas rivais, entendíamos que como éramos muitos primos, não precisávamos de mais ninguém se metendo nas nossas brincadeiras, como esses meninos ficavam em outra rua, quase não nos cruzávamos, a não ser quando estávamos brincando de corrida em volta do quarteirão ou só andando de bicicleta/patinete.

Estes outros meninos moravam em um prédio e essa era mais uma razão para a rixa, nos estávamos em uma casa, eles não! Minhas tias e tios nunca incentivaram essa rixa, nas verdade eles gostariam que nós fossemos como eles, que faziam amizade com todos da rua, então certa vez apareceu um outro menino na nossa rua e quem nos apresentou ele foi uma de minhas tias, ela levou o menino lá onde estávamos brincando e o apresentou, ficamos todos medindo ele de cima embaixo, e as meninas nem deram confiança, minha tia disse que ela morava uma um prédio da nossa rua e que ele tinha se mudado naquela semana e estava querendo fazer amigos, naquele dia ele brincou conosco numa boa e até começamos a pensar que ele era um cara legal, embora morasse em prédio.

Esse negócio dos meninos de prédio serem nossos rivais aplicava-se unicamente quando estávamos na casa de nossa avó, pois todos morávamos em apartamentos, mas os nossos rivais não precisavam saber disso!

No dia seguinte o songamonga do nosso novo “amigo” meteu-se a besta de ir brincar com os meninos do prédio da outra rua, descobrimos isso enquanto dávamos nossa volta de patinete/bicicleta no quarteirão, quando contamos isso para os primos maiores que não tinham ido dar a volta eles não deram muita importância, então fechamos em 5 primos que não deixariam aquilo ficar barato: eu, meu irmão, os dois primos menores e mais um da idade do meu irmão. Quando o traíra chegou na casa da minha avó depois do almoço, nós já fomos interrogando o safado: “O que você estava fazendo lá naquele prédio?”. Ele sem entender muito o porquê daquela hostilidade respondeu: “Eu estava brincando com eles.”, na lata devolvemos: “Não pode! Eles não são nossos amigos.”. Quem tomava a frente dessa discussão, era o meu irmão e o primo da idade dele, eu e os outros 2 ficávamos cercando ao lado, prontos para qualquer situação de emergência, que no meu caso era sair no braço, e dos menores era correr pra chamar os maiores. A reação que nosso vizinho teve ativou o meu modo brigão com todas as forças, ele empurrou meu irmão e disse que todos nós éramos um bando de meninos bobos, não que eles estivesse errado, mas a verdade é dura e machuca, então assim que ele empurrou meu irmão eu baixei a cabeça e comecei a socar a barriga dele, ele bem que tentou me empurrar mas eu estava empenhado em vingar a honra da família. Ouvi na hora que nosso primo mais velho chegou berrando e perguntando o que estava acontecendo, a voz dele ativou em mim o modo vingança, então assim que ele me pegou pra tirar da briga eu sem pensar dei um soco no meio das pernas dele, tai uma coisa que todo menino aprende cedo, bater no saco dói muito!!!! Quando meu primo maior caiu no chão o nosso vizinho traíra aproveitou a confusão e fugiu correndo pra casa.

Meu primo ainda ficou ali no chão alguns minutos me jurando de morte, mas ele sabia que não poderia me bater, pois como eu era menor que ele, eu era intocável. 🙂

Minutos depois vimos o menino voltando com a mãe dele e saímos correndo pra dentro da casa da minha avó. Vimos que nossa tia, a que tinha apresentado o vizinho pra nós, ficou lá fora conversando com a mãe do dito cujo, minha mãe, meu pai e as outras tias chegaram também para a conversa, e quando saíram de lá chamaram os envolvidos na confusão para uma conversa séria. Meu pai e minha mãe nos chamaram pra dentro de um dos quartos que tinha na casa de minha avós, sentamos todos na cama, eu e meu irmão no meio e nossos pais do lado.

Meu pai começou a conversa:

– Por que vocês estavam brigando com o Fabricio?

– Mas eu não briguei com ninguém pai! – disse meu irmão

– Brigou sim. Você ficou acusando ele de brincar com os outros meninos do quarteirão. E qual o problema disso? – disse meu pai ficando bravo, antes que eu pudesse abrir a boca pra me defender, ele emendou:

– Você não são cachorros que precisam ficar marcando território, as pessoas conversam e fazem amigos, não ficam presos somente a família, se vocês continuarem com essa atitude de animal irracional vão crescer sem amigos, porque um dia seus primos e primas vão arranjar outros amigos e vocês dois vão ficar que nem uns bobões sem ninguém pra brincar e conversar. Quando as férias acabarem vocês irão pra outra escola e caso não mudem esse jeito de bicho do mato vocês serão excluídos da suas futuras turmas da escola.

A noticia que sairíamos da nossa atual escola foi um baque, não sabíamos que íamos mudar de escola, mas nosso pai não deixou nem mesmo pensarmos em sofrer com aquela terrível noticia.

– E você Edward? De onde tirou essa porcaria de idéia de ficar batendo nos outros? Eu já te bati alguma vez? Por acaso eu te disse que você deveria resolver seus problemas com socos?

Meu pai constantemente cometia o ato falho de me chamar de Edward, e eu tinha a leve impressão que isso irritava minha mãe, que antes que eu pudesse explicar que tinha batido no vizinho porque ele empurrou meu irmão, me fez outra pergunta:

– E porque você socou seu primo EDUARDO?

Ela disse meu nome com ênfase enquanto olhava para meu pai.

– Porque ele me fez bater a cabeça na mangueira. – respondi abaixando a cabeça e fingindo remorso.

Ela levantou minha cabeça pelo queixo e respondeu:

– EDUARDO levante a cabeça e responda como homem.

Mais uma vez, ênfase no meu nome.

– Se você não deve brigar com estranhos na rua, imagine com sua família!!! – Acrescentou minha mãe. Você vai sair desse quarto daqui a pouco e vai pedir desculpa pro seu primo, e tem que abraçá-lo!

Aquilo era a morte, ter que pedir desculpas enquanto abraçava meu primo!!!!

– E da proxima vez que um de vocês dois brigarem na rua por causa de qualquer besteira, vocês vão se entender comigo!!! – disse meu pai com rispidez enquanto levantava.

– Podem sair do quarto e se comportem que nem pessoas racionais!!!! – disse meu pai apontando para a porta.

Enquanto saiamos do quarto eu escutei minha mãe falar bem baixinho pro meu pai: “Edward é?”.

Meus primos já estavam todos na sala sentados nos sofás, então sob os olhares de TODOS da família eu me direcionei ao meu primo mais velho e pedi desculpa, ele levantou do sofá e eu o abracei, quando ele abaixou pra me dar um abraço, chegou perto do meu ouvido e sussurrou: “Vai ter volta Duduzinho”.

Na verdade nunca teve volta, mas a partir daquele dia nunca mais implicamos com os meninos do prédio da outra rua, mas o trairão que empurrou meu irmão entrou na minha lista negra pra sempre!!!  🙂

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