A Substituta

por eduardopmorris

Quantos de vocês têm uma lembrança tão forte assim da infância? Tenho muitas delas e por isso as descrevo aqui, porém memórias recentes não são o meu forte, por exemplo, enquanto escrevo estes posts preciso reler todo o blog novamente várias vezes pra ver se não estou reescrevendo alguma coisa. E isso pode acontecer até mesmo no mesmo conto. Tenso!!!

Mas muitos momentos da minha infância me fazem não querer esquecê-los, principalmente os momentos que passei na escola, posso listá-los facilmente, por exemplo: ser o cachorro da brincadeira da casinha, ser o menor da turma, ser chamado de Pintinho, ser o que único que tomava beliscão da diretora (nem meu irmão tomava), ser o único a ficar de castigo todos os dias, tirar notas boas (Ziraldo que me perdoe pelo plágio) exceto em um tal de comportamento, namorar com todas as meninas bonitas da minha sala (mesmo sem elas saberem) dentre elas as filhas das duas donas da escola e fazer uma professora substituta chorar e nunca mais querer voltar na escola. Hmmmm…. Acho que esse é o mote pro meu próximo conto. 😉

Certa vez no final do ano, mais ou menos em outubro, as professoras estavam escolhendo quem faria a peça de teatro sobre o natal, e não sei bem porque eu não estava sendo escolhido pra nada, NADA!!! Quando cheguei em casa fiz meu drama com minha mãe e não sei bem porque ela parecia estar aliviada com tal situação, mas como estava enchendo o saco dela, ela pegou o telefone e ligou pra madrinha do meu irmão pra saber o porque de tal injustiça, da conversa que desenrolou ouvi a seguinte parte relevante para este conto: “Por que ele não está na peça de natal?”, “Claro que entendo, também não quero passar por isso”, “Esse menino vai me atormentar”, “Meu medo é esse mesmo”, “Não sei o que ele poderia fazer” e “Obrigada”. Depois disso minha mãe veio me dizer que a madrinha do meu irmão ia conversar com a professora e ia ver o que podia fazer, mas que era pra eu me comportar como uma criança direita (não entendi muito bem o que isso significa).

No dia seguinte lá fui eu pra escola, feliz da vida pois estaria na peça de natal da minha turma. Quando chegamos na sala de aula a professora chegou dizendo que haviam mudanças no elenco da peça de natal e que agora o papel de um dos reis magos (Baltazar) era meu!!! YEAH! Mais uma vez eu estava conseguindo colocar o mundo aos meus pés, mas, perae… quem é esse tal de Baltazar??? Questionei a professora e ela me disse que ele havia levado o incenso pro menino Jesus, e que eu seria ele por ser um pouco parecido fisicamente. Não sabia o que era incenso e nem me importava, muito menos entendia o que era ser “um pouco parecido fisicamente”, o importante era que eu estava na peça e teria contato direto com o menino Jesus. Meu real medo era de pegar o papel de algum animal que estava perto do menino Jesus, já que eu tinha uma merda de experiência como cachorro nas brincadeiras de casinha.

Quando começaram os ensaios, e fiquei sabendo que o tal de Baltazar só falava uma única frase, me revoltei! Não era possível! Depois de tanta argumentação, eu só tinha UMA FALA! Quando comecei a reclamar muito a professora disse: “Fique satisfeito por não ser o burrinho.”. Isso foi suficiente pra eu ver que era melhor ficar quieto. Como eu tinha somente uma fala, a tal peça não seria tão complicada, mas isso não poderia ficar assim.

Durante este período de ensaios a nossa professora não pode comparecer em um dos dias, então mandaram uma professora substituta, pois incrivelmente ninguém queria tomar conta da nossa turma, nem mesmo por um dia.

Como essa professora supostamente não conhecia ninguém ela pediu que nos apresentássemos e isso ocorreu normalmente, ela se apresentou dizendo que era sobrinha da outra dona da escola e que ficaria conosco por dois dias, pois nossa professora não poderia nos dar aula, depois ela disse que como estávamos no final do ano, a aula daqueles dois dias seria especial e que por isso teríamos dois dias inteiros de aula de educação artística. Fique extasiado de pensar que poderia passar dois dias inteiros cortando e rabiscando, não sabia desenhar bem, muito pelo contrario, desenho mal até hoje, mas era melhor que ficar escutando aquelas aulas chatas. Uma outra notícia, era que naqueles dois dias não teria ensaio da peça, pois só quem poderia fazer isso era a nossa professora. Fiquei mais feliz ainda, pois já estava de saco cheio de ficar falando a mesma frase: “Sou Baltazar, e trouxe a mirra para o nosso profeta” e depois colocar um mato ao lado de um boneco sem graça.

Foi distribuída uma revista pra cada aluno, não lembro bem o nome da revistas (é querer demais né!) e nessa revista tinha um monte de coisa pra ficar desenhando, pintando e recortando.

Lá pela metade da aula eu já estava de saco cheio de tanto recortar e colar, quando decidi fazer algo diferente. Notei que todo mundo ia à professora nova e mostrava o desenho, ela então elogiava e dava um beijo no rosto da criança. Decidi então que a professora também seria minha namorada e por isso ela merecia ganhar o desenho mais bonito da sala. De repente me dei conta que o menino que sentava na minha frente estava lá todo concentrado, só pintando. Fiquei olhando pra cena e de repente me ocorreu uma idéia, pra fazer meus desenhos ficarem mais legais, poderia colocar uma blusa de verdade nele e depois um cabelo de verdade também. Então lá fui eu desenhar, quando terminei, olhei novamente pra frente e lá estava o sonso ainda pintando. Peguei minha tesoura e cuidadosamente recortei uma mexa generosa de cabelo do infeliz, coloquei a tesoura sobre minha cadeira, peguei a cola, passei no meu desenho e coloquei o cabelo, depois guardei a cola, peguei novamente a tesoura e recortei um pedaço da gola da blusa do lerdo, e repeti o ritual para colar a blusa no meu desenho. Quando terminei fui todo feliz mostrar pra professora, ela pegou meu desenho com um sorriso digno de uma das minhas namoradas, de repente a cara dela mudou, e ela me perguntou: “O que é isso aqui colado?”, eu respondi: “É o cabelo e a blusa do meu desenho”, ela meio que estranhou e ficou olhando pro meu cabelo e pra minha blusa, então me perguntou de onde eu tinha tirado aquilo, e começou a olhar preocupada para os outros alunos. Eu tranquilamente apontei para o loirinho que sentava na minha frente e na mesma hora ela levantou assustada e foi em direção ao menino. Ao constatar minha obra de arte, ela veio pra cima de mim como se fosse me atropelar, me pegou pelos ombros, começou a me sacudir como se eu fosse um chocalho e eu instintivamente reagi e peguei nos cabelos dela e comecei a puxar e sacudir a cabeça dela, nisso ela começou a gritar me dizendo que já tinham prevenido ela que eu era louco, anormal e etc. De repente ela parou com aquilo e eu soltei os cabelos dela, então ela simplesmente saiu da sala. Ficamos lá abandonados, a turma toda novamente olhando pra mim.

Minutos depois entra na sala a professora do meu irmão me olhando como se eu fosse de outro mundo. A professora do meu irmão impunha respeito, era uma mulher “forte” e alta que sinceramente me fazia sentir um filhote de pulga. Ela calmamente pediu para que todos sentassem e explicou que a professora substituta não voltaria mais por problemas pessoais. Ela pediu que voltássemos a fazer nossas atividades, mas enquanto ela falava isso, veio andando até minha cadeira e recolheu minha tesoura calmamente e guardou, eu intimidado fiquei quieto. Ela ainda avisou que qualquer coisa, mas qualquer coisa mesmo ela iria até a nossa sala, isso devido a sala dela ser ao lado da nossa.

No final do dia fomos pra casa, eu e meu irmão, nessa época já andávamos de ônibus sozinhos e durante o percurso pra casa meu irmão disse que o negocio ia ficar feio pra mim, pois a professora substituta havia dito que nunca mais voltaria naquela escola pois o filho do demônio estudava lá, não sei muito bem de onde meu irmão tirou a associação que o filho do demônio era eu, mas como o único a ter problemas com a professora havia sido eu, melhor vestir a carapuça. Minha mãe naquele dia não falou nada comigo, e como eu já sabia que o silencio significava o ultimo recurso antes da surra, revi meus planos com relação a peça de natal e achei melhor não aprontar nada, de repente as pessoas podiam não achar engraçado botar fogo na manjedoura do menino Jesus. 😉

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