A primeira e o último

por eduardopmorris

Como eu já disse, a segunda escola por onde passei não teve muita coisa interessante, a terceira então nem se diga, afinal de contas o que tem de anormal em brigas na sala de aula, brigas fora da escola, jogar cadeira pela janela, pegar papel molhado e jogar no teto ou ameaçar os outros alunos pra te darem cola??? Mas calma, não fiz nada disso, lembrem-se que na terceira escola onde estudei tinha colocado na cabeça que seria o melhor da turma, até tive que entrar em uma disputa intelectual com outro CDF que já estudava lá há mais tempo, mas tirei essa disputa de letra.

Mas a segunda escola por onde passei teve um fato marcante, foi lá que encontrei a minha primeira verdadeira namorada, coisa de criança, mas ainda assim uma namorada nos padrões da normalidade, ou quase!

Nessa época eu já andava de busão pra cima e pra baixo dentro de Vitória, aquela ilha já estava quase toda dominada só faltava eu pegar uns 3 ônibus errados e eu conheceria ela toda. Em uma destas viagens de busão vi uma menina que me chamou a atenção, eu tinha acabado de pular a roleta e estava indo sentar com meu irmão, quando olhei pra trás e a vi passando também pela roleta, ela era menor e um ano mais nova que eu e estava acompanhada da mãe dela, na hora notei que ela estava com o mesmo uniforme que eu, mas por ser um ano mais nova, a turma dela entrava por outro portão da escola e em outro horário, os recreios dela também eram em outro horário, em resumo eu só poderia vê-la dentro do busão. Fiquei de longe tentando ver o ponto que ela desceria, mas meu irmão ficou jogando conversa fora comigo e não consegui ver qual era o ponto.

No dia seguinte, estava lá do lado de fora da escola apostando com meus colegas quem cuspia mais longe quando de repente chega uma menina bonitinha e me entrega uma cartinha, ela saiu correndo e passou pelo portão por onde entraríamos, o portão já estava aberto, mas não podíamos entrar pois as crianças menores ainda estavam no pátio, quando vi que a menina entrou novamente fiquei prestando atenção nela e notei que ela estava indo conversar com a menina do busão, na mesma hora sai de perto dos outros meninos e fui ler a cartinha, nela estava escrito “Você quer namorar comigo?”, e tinham dois quadrados pra marcar SIM e NÃO. Como eu estava desimpedido, pensei “Por que não?”, marquei o quadradinho com o “SIM” e cheguei perto do portão pra entregar a cartinha, a menina bonitinha veio perto do portão e eu entreguei a cartinha, ela disse “Espera” e eu fiquei ali do lado do portão vagabundeando, daqui a pouco ela voltou com outra cartinha, na hora lembrei dos meus outros namoros e imaginei que esse negocio de namoro era mais complicado do que parecia, na carta estava escrito “TE AMO, QUAL O SEU TELEFONE?”, não me assustei com as primeiras duas palavras, nem tinha noção do que elas significava, então escrevi o telefone no papel e devolvi pra “leva e tráz”, que sumiu correndo pra dentro da escola, como ela não disse nada fiquei ali bestando no portão até a nossa entrada ser liberada. Como era de se esperar, não tive resposta dela durante o dia todo, e nem mesmo a encontrei no busão, mas depois que cheguei em casa, tive a novidade com relação ao meu novo namoro, o telefone tocou e como eu que estava ali por perto atendi sem nem mesmo me atentar para o que tinha acontecido pela manhã, quando terminei de falar “Alô” alguém disse algo inaudível do outro lado e desligou, ainda não tinha lembrado do acontecido pela manhã, então achei que era algum daqueles trotes do tipo:

– Alô, é da casa do Zé Porquinho?

– Não!

– Então desculpa porque eu liguei pro chiqueiro errado! – e o safado do outro lado desligava.

Mas que diabo de trote besta era aquele? Eu falava alô e a pessoa falava alguma coisa louca e desligava? Deixei pra lá e fui pro quarto, mas antes que eu desse o segundo passo o telefone tocou novamente, e lá fui eu mais uma vez:

– Alô?

– tiamu – e o telefone mais uma vez foi desligado.

Aí a ficha caiu!!! Caraca, a menina louca do busão estava me telefonando, falando “Te amo” e desligando! Que maluca! Desliguei o telefone, mas dessa vez nem me mexi, fiquei ali esperando o telefone tocar e ele tocou, mas não disse alô, fiquei esperando a maluca falar alguma coisa e acho que ela foi pega desprevenida com o silêncio, pois ela falou:

– Alô?

– Oi. – Respondi.

– Por que você não falou nada? – Disse ela parecendo brava

– Ué, porque eu não quis. – Respondi calmamente.

– Você é bobo hein. – Disse ela ainda parecendo brava.

– Mas eu quero conversar com você e saber seu nome.

– Não posso conversar, meu irmão fica aqui me vigiando, e meu nome é Adriana. Tchau! – e desligou novamente.

Pronto, agora eu sabia o nome da minha nova namorada. No dia seguinte eu tinha um plano pra encontrá-la.

Quando chegou nossa hora de entrar na escola, fingi que tinha esquecido minha agenda, um livro diário onde o professor anotava atividades para casa e o nosso comportamento, o castigo para quem esquecia a agenda era passar o dia todo na biblioteca lendo livros, qualquer livro que tivesse na biblioteca. De repente entram umas meninas na biblioteca, eu que estava atrás da estante fiquei só olhando e quando elas entraram em um dos becos da biblioteca eu apareci na frente dela e disse: “Oi”.

As 3 meninas tomaram um susto, mas uma delas ficou mais assustada do que o normal, Adriana perguntou:

– O que você está fazendo aqui?

– Esqueci minha agenda, aí já vu né? – expliquei.

– Mas você não pode ficar aqui! – respondeu ela ainda assustada

– Claro que posso, na verdade eu SÓ posso ficar aqui. – respondi sorrindo.

– Não acredito! E como você sabia que eu estaria aqui no meu recreio?

– Ontem vi sua amiga com um livro com o selo da biblioteca, aí já viu né?

– Tchau! – disse ela enquanto virava as costas e saia da biblioteca.

A amiga bonitinha dela deu de ombros pra mim e saiu atrás junto com a terceira.

Quando minha mãe até chegou a me questionar a respeito da minha agenda, mas inventei a desculpa besta que ela tinha caído atrás da minha cama e por isso não levei, mas bem antes que minha mãe chegasse a minha namorada ligou:

– Oi.

– Oi. – respondi espantado, afinal de contas ela parecia estar calma.

– Amanhã você pode fazer a mesma coisa? – perguntou ela parecendo ter gostado da minha travessura.

– Hmmmmm, a agenda eu não posso esquecer mais, minha mãe vai me dar um esporro por causa do que eu fiz hoje, mas posso esquecer a caderneta. – Respondi empolgado.

Uma pausa para a explicação: além da agenda tinha que levar também a caderneta que era a prova que tínhamos ido pra escola naquele dia, na caderneta ficava a nossa presença diária junto com as nossas notas bimestrais e todo dia nossos pais também precisavam assiná-la pra mostrar que estavam cientes do que acontecia na escola.

– Então te encontro amanhã na biblioteca. – disse ela desligando logo em seguida, antes que eu pudesse me despedir e pedir o telefone dela.

No dia seguinte, mesma coisa, não apresentei a caderneta e fui levado para a biblioteca, isso foi bom, pois consegui terminar algumas leituras que haviam ficado pendentes no dia anterior. Mas infelizmente a sacana da Adriana não apareceu.

De noite antes de tomar o segundo esporro servido com sermão consecutivo da minha mãe, Adriana me ligou:

– Desculpa Dudu. – começou ela meigamente.

– Como você sabe meu nome? – respondi assustado.

– Sua prima Alice é da minha sala.

– …….

– Você ainda está aí? – disse ela depois de alguns segundos.

– Estou sim, mas como você sabe que ela é minha prima?

– Hoje levamos fotos da nossa família pra sala, e vi que você estava em uma foto abraçado com ela. E por isso não fui na biblioteca, porque estava brava com você.

– Mas por que? Ela é minha prima!

– Só fui saber disso depois do recreio. Por isso estou pedindo desculpas.

– Poxa! Amanhã não posso esquecer a agenda e muito menos a caderneta. – disse revoltado.

– Eu sei. Então eu vou fazer o seguinte, vou pular o muro do lado da escola e te encontro naquele prédio que fica do lado. Me espera ali por perto que eu te chamo.

– Tá bom. – Respondi enquanto imaginava onde ficaria o tal prédio vizinho.

– Então tchau. Te amo.

– Te amo. – Respondi isso pela primeira vez na minha vida.

Definitivamente, crescer em uma escola tem dessas vantagens, da mesma forma que eu conhecia a minha antiga escola MUITO bem, a Adriana demonstrava conhecer a escola onde estudávamos melhor ainda.

No dia seguinte fui para o tal prédio e fiquei lá esperando ela aparecer, como um ninja que sai das sombras ela aparece atrás de mim e me chamou, olhei pra trás e vi que ela estava na beira de um buraco onde ficaríamos invisíveis aos que passavam na rua, me encaminhei ate ela e fui logo perguntando:

– Como chegou aqui? – Perguntei espantado.

– Pulei o muro da escola, com a ajuda de duas amigas. – Respondeu ela naturalmente.

– E como vai voltar?

– Uma das minhas amigas pulou junto, mas você vai ter que ajudá-la a voltar pra dentro da escola.

Pra que? Imaginei. Afinal de contas era só ela pular sozinha que eu a ajudava a voltar.

– Tudo bem, mas você poderia pelo menos me falar o seu telefone? – Perguntei antes que ela fugisse ou eu esquecesse.

– Te falo hoje a noite quando te telefonar.

– Então tá, mas será que poderíamos pelo menos… – e fui andando em direção a ela com a intenção de beijá-la. Mas a cachorra saiu da minha frente na hora H e eu cai dentro da porra do buraco que estava atrás dela.

Eu não tinha crescido muito, e o buraco tinha a altura dos meu ombros, então custei um pouco a sair, mas ela saiu correndo pra voltar pra escola antes que eu saísse do buraco. Quando consegui sair fui correndo atrás dela pra ver se conseguia pelo menos o tão esperado beijo, mas quando cheguei lá só estava a amiga bonitinha, fiquei ali olhando pra ela e a única coisa que me restava era ajudá-la a pular o muro, fiz “pezinho” pra ela, mas ela disse que não sabia subir daquele jeito, então a única forma de ajudá-la era ficando de quatro pra ela subir nas minhas costas, quando fiz cara de “não acredito” pra ela, ganhei um beijo na bochecha que me convenceu a tão árdua tarefa, sujar a blusa não era o problema, afinal já estava todo sujo por conta de cair no buraco e ter de sair dele, meu medo era algum dos meus colegas verem e ficarem de sacanagem comigo o restante do ano.

Devido a minha pose de cascão, tive que ficar mais uma vez na biblioteca o dia todo, mas aquele dia eu estava muito feliz, embora tivesse motivos para ficar de outra forma.

De noite ganhei um castigo de “mi madresita” que me custou ficar lavando a louça e o banheiro por uma semana sem sair de casa pra nada a não ser pra ir à escola, mas ia enfrentar esse castigo de ficar dentro de casa numa boa, pois a conversa que tive com Adriana foi muito esclarecedora:

– Oi Dudu.

– Adriana, antes que você diga qualquer coisa, eu não quero mais namorar com você.

– tu tu tu tu tu tu tu

Fez o som do telefone desligado de outro lado da linha.

Agora só faltava descobrir o telefone da amiga bonitinha da Adriana, então liguei pra minha prima imediatamente.

– Oi Lice.

– Oi Du.

– Qual o nome e telefone daquela amiga bonitinha que sempre está com a Adriana?

– Sei lá Du, sempre tem duas meninas com ela.

– A mais bonita Lice, me ajuda vai.

– Du, a mais bonita tem namorado e é da turma do seu irmão.

– Poxa! Me ferrei. Obrigado Lice. Beijo e tchau.

– Tchau Du.

O namorado dela era maior que eu, mesmo que ele fosse da minha turma seria maior que eu, sendo mais velho então, ferrou!

Enquanto eu divagava sobre meu namoro de menos de 1 semana, o telefone tocou.

– Eu gostaria de falar com o Eduardo. – Disse rispidamente a voz de uma mulher.

– Sou eu.

– Seu moleque filho de uma puta, se você chegar perto da minha filha de novo, eu te corto todo na tesoura, e eu sei sua cara porque eu já te vi dentro do ônibus e sei onde você mora!

Fiquei congelado enquanto o telefone fazia novamente o som de desligado, eu lembrava vagamente da mãe da Adriana, mas não teria como reconhecê-la na rua caso ela quisesse me pegar desprevenido.

Obviamente não contei nada daquilo pra minha mãe, já bastavam os problemas que ela tinha, nem pro meu irmão que conhece muitos dos meus segredos eu contei nada.

Passei uma semana dentro de casa sem sair pra nada, e mesmo depois desse período eu ainda tive receio de sair de casa e ser pego na covardia, mas mais uma vez eu fui ameaçado por uma pessoa sem palavra, pois aquela mulher doida nunca tentou fazer nada comigo, graças ao bom Deus.  🙂

Vocês lembram do titulo desse conto? Leiam lá e depois retornem aqui.

Notaram que a “Primeira” descrita era a Adriana né? Minha primeira namorada que cito o nome no livro. E o último??? Seguinte, quando conheci Adriana já estava entrando na pré-adolescência e como não ocorreu nada de legal nessa época, a não ser olhar as vizinhas trocando de roupa com a janela aberta, esse é o meu ultimo conto da minha infância.

Espero que tenham gostado, e se preparem, pois já morreu quem tinha que morrer e minha mãe não casou novamente e por isso mesmo, não se separou. (dããã)

Beijundas e nos vemos na minha adolescência!!!

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